Padrelladas

Diário da Pandemia

(*) Eu me lembro, eu me lembro, era criança e brincava em Palmeira. Pela Rua Conceição descia uma ponta de gado. Seu Marino ia à frente, aboiando, o berrante na boca. Para avisar à população que se escafedesse. Pois não há de ver que na esquina da Alfaiataria Capraro uma rês determinou-se a enveredar pela Padre Camargo, descendo aquele lançante em desabalada carreira! O Elvo foi atrás dela, e vamos que atropelasse algum vivente!

Passou pela oficina do Luiz Delfrate (defronte ao Clube Beneficente), passou pelo negócio do seu Teixeirinha, fabricante do Café Trevo, e só foi alcançada quando chegava à Vicente Machado. Laçada pelo filho do Marino, incorporou-se ao grupo sem demonstrar nenhuma vergonha na cara.

A caravana seguiu na direção das pastagens do Pedrinho de Paula, onde engordaria, e em seguida seriam todos abatidos e expostos em peças no Mercado. Engordaria é maneira simpática de dizer, que daquele magro capim mal tiravam a energia para continuarem vivos.

Essa lembrança me ocorre agora. Revejo um boiadeiro não tocando berrante, mas empunhando a bandeira do meu país. Atrás dele, um gado magro de ideias e magro de magro mesmo. Uma vaca tenta escapar, nem sabe por que, mas decide abandonar o rebanho; fica feliz quando é laçada por quem vai recolocá-la de volta ao lugar que lhe pertence. Lhe pertence é maneira gentil de se falar. Bons tempos aqueles! – diriam os atuais capitães de mato – naquele tempo o gado conhecia seu lugar.

(*) O que o Planalto faz para angariar uma graninha para ajudar na Economia! Agora apareceu uma rifa, dessas de cartela com nomes femininos, você escolhe um nome, paga e espera sentado. Tinha sobrado Michele. Sou fã de carteirinha da Michele Morgan, mas quis ver as outras opções. Não tinha mais. Já tinham comprado minhas preferidas: Maria Bananeira de Jesus, Sara Auxiliadora, Norinha do Capitão.  Falei assim: “Querem saber?” Ninguém quis.

(*) Um gosto doce na boca, ou é na alma que adocica? Saudade chega de longe ou só foi criada agora, na hora da pandemia? Eu burguês me protegendo das mazelas lá de fora. Na mesa farta, o banquete. Nenhuma ameaça paira real sobre meu castelo. Enquanto isso, nas calçadas, o amarelo dos ipês já enlouquece Curitiba.

FRASES DA HISTÓRIA PARANAENSE: “Não passarão!” – Atribuída ao Barão do Cerro Azul, que queria ter dito “não pensaram” e acabou falando outra coisa bem diferente.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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