Pandegozador dos leitores – James Joyce

Mês de junho — sem balões no céu, sem fogueiras, com poucas bombas e fogos de artifício — melhor falar de literatura.

— Siempre hablas con mucha ironía de los críticos. Por qué te disgustan tanto? — Porque, en general, con una investidura de pontífices, y sin darse cuenta de que una novela como Cien años de soledad carece por completo de seriedad y está llena de señas a los amigos más íntimos, señas que sólo ellos pueden descubrir, asumen la responsabilidad de descifrar todas las adivinanzas del libro corriendo el riesgo de decir grandes tonterías. (Gabriel García Marques, El olor de la guayaba)

Bem, voltando ao português claro, passo esse papo pro lado do James Joyce. Esse irlandês era, de papel passado, um pândego. Escreveu sempre sobre ele mesmo e seus parentes e amigos. Tudo muito íntimo e, em muitos casos, revelador. Começou escrevendo como qualquer escritor. Da esquerda para a direita, com parágrafos, vírgulas, pontos e ponto final. Os contos e o primeiro livro mais longo tratam de infância, juventude e meia idade.  Só que, daí em diante, ele pirou na maionese. Enveredou pela mitologia e construiu um monólito. Só do Ulisses, mais de quinhentos autores tentaram escavações milagrosas. Tentaram tirar o que fosse possível das menores palavras. Anthony Burguess em seu Homem comum enfim chega a pegar a palavra ‘tinido’ e fazer um capítulo sobre o emprego dela no Ulisses. Burguess diz: Assim, a palavra’ tinido’ — jogada no texto sem preparação ou resolução — representa a partida de Boylan numa sege para ver Molly Bloom e, por antecipação, o balançar das molas adúlteras da cama. Putz! Vá ser detalhista assim lá no raio que o parta! Se mais algum leitor, no mundo inteiro, conseguiu essa proeza, eu ando pelado, no frio curitibano de junho, pelo calçadão da Rua das Flores, ida e volta. Foi, até agora, o livro que li que desceu mais fundo na ‘análise’ da obra de James Joyce.

Porém, a literatura de Joyce só tem real valor se o leitor estiver familiarizado com a família e todos os amigos e inimigos dele. Além disso, tem que ter uma base bem sólida de mitologia grega. As transposições que Joyce faz dos personagens da Odisséia para seu livro são algumas vezes sutis e outras escancaradas. O mesmo se dá com os episódios da obra de Homero e os do Ulisses. As gozações com parentes, amigos e inimigos estão fora do alcance de qualquer mortal que não tenha lido e relido a biografia do autor. O amor/ódio de Joyce à Irlanda só tem sentido para ele e para seus conterrâneos. As blasfêmias só afetam quem entende os problemas de Joyce com a Igreja. E quem entende o papel da Igreja na Irlanda. E quem entende as brigas entre irlandeses e ingleses.  Além disso, a linguagem empregada só tem sentido mesmo em inglês. Num dos capítulos, diz Burguess, Joyce usa e abusa das várias transformações da língua inglesa ao longo dos tempos. Quem entenderia isso na tradução portuguesa? E — quer mais? — o massudo livro não anda. É estático. Tudo só anda dentro da cabeça dos personagens. Com poucas movimentações e ações de pessoas. Burguess diz que Ulisses é um livro para se ter e conviver com ele.

Não adianta emprestar — de amigo ou da biblioteca — porque o tempo conspira contra a leitura. Engraçado o tempo conspirar contra a leitura de um livro cujo enredo abrange apenas um dia! Burguess também diz que Ulisses é um grande romance cômico. Pode ser, mas só deve rir quem o lê em inglês. E no inglês de Joyce, cheio de invenções, inversões, reversões. Confesso que todas as vezes que abri o livro, não consegui nem sequer um muxoxo. Rio, sim, mas é dos entendidos que fazem do dia 16 de junho um dia sagrado. Seja em Dublin ou Piraporinha. Fazem centenas de palestras, leituras, discussões e ‘achados’ sobre o escritor — que, na verdade, nunca leram até o fim e, se leram, não entenderam nada. Quem deve estar rindo lá no alto do Olimpo é Joyce. Rindo dos que o levaram a sério em suas pandegozações e it is not a miseffectual whyacinthinous riot of blots and blurs and bars and ball and hoops and wiggles and juxtaposed jottings linked by spurts of speed:it only looks as like it as damn it. E Finnegans wake! Quem — eu? — nunca jamais em tempo algum.

Um tempo eu pensei em ter um sebo de um livro só — Ulisses. Todo mundo compra, não lê e vende no sebo. Eu teria vários exemplares dele e ficaria eternamente vendendo e comprando, revendendo e recomprando…

Rui Werneck de Capistrano é autor
de Nem Bobo Nem Nada. O primeiro romancélere do Brasil.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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