Paradoxos da História

O Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais belas esculturas da era colonial americana. Um dos melhores guitarristas de jazz, o cigano Django Reinhardt, não tinha mais que dois dedos em sua mão esquerda. O grande mestre da cozinha francesa não tinha mãos: escrevia, cozinhava e comia com ganchos.

Estes e outros paradoxos da história estarão no próximo livro do escritor Eduardo Galeano: “Espejos”. A História vista do espelho, refletindo o reverso da humanidade. “Cada dia, ao ler os jornais, assisto a uma aula de história”, escreve Galeano.

Os jornais ensinam-me pelo que dizem e pelo que calam.

A história é um paradoxo ambulante. A contradição move-lhe as pernas. Talvez por isso os seus silêncios dizem mais que suas palavras e muitas vezes as suas palavras revelam, mentindo, a verdade. O escritor uruguaio pede desculpas pelo atrevimento e confessa que sucumbiu à tentação de contar alguns episódios da aventura humana “do ponto de vista dos que não saíram na foto.” Abaixo, alguns paradoxos, apenas uns poucos.

***

– Quando foram desalojados do Paraíso, Adão e Eva se mudaram para África, não para Paris.
– Algum tempo depois, quando seus filhos já se haviam lançado pelos caminhos do mundo, foi inventada a escrita. No Iraque, não no
Texas.
– Também a álgebra foi inventada no Iraque. Foi fundada por Mohamed al Jwarizmi, há mil e duzentos anos, e as palavras algoritmo e algarismo derivam do seu nome.
– Os nomes costumam não coincidir com o que nomeiam. No British Museum, por exemplo, as esculturas do Partenon chamam-se “Mármores de Elgin”, mas são mármores de Fídias. Elgin era o nome do inglês que as vendeu ao museu.
– As três novidades que tornaram possível o Renascimento europeu, a bússola, a pólvora e a imprensa, haviam sido inventadas pelos chineses, que também inventaram quase tudo o que a Europa reinventou.
– Os hindus souberam antes de todos que a Terra era redonda e os maias haviam criado o calendário mais exato de todos os tempos.
John Locke, o filósofo da liberdade, era acionista da Royal Africa Company, que comprava e vendia escravos.
– Nomes de alguns navios negreiros:
Voltaire, Rousseau, Jesus, Esperança, Igualdade, Amizade.
“O nascimento de uma nação”, a primeira superprodução de Hollywood, estreou em 1915, na Casa Branca. O presidente, Woodrow Wilson, aplaudiu-a de pé. Ele era o autor dos textos do filme, um hino racista de louvação à
Ku Klux Klan.
– Desde o ano 1234, e durante os sete séculos seguintes, a Igreja Católica proibiu que as mulheres cantassem nos templos. As suas vozes eram impuras, devido àquele caso da Eva e do pecado original.
– Os campos de concentração nasceram na África. Os ingleses iniciaram o experimento, e os alemães desenvolveram-no. Depois disso Hermann Göring aplicou na Alemanha o modelo que o seu papa havia ensaiado, em 1904, na Namíbia. Os professores de Joseph Mengele haviam estudado, no campo de concentração da Namíbia, a anatomia das raças inferiores. As cobaias eram todas negras.
– Em 1936, o Comitê Olímpico Internacional não tolerava insolências. Nas Olimpíadas de 1936, organizadas por Hitler, a seleção de futebol do Peru derrotou por 4 a 2 a seleção da Áustria, o país natal do Führer. O Comitê Olímpico anulou a partida.
– A Hitler tinha muitos amigos. A Rockefeller Foundation financiou investigações raciais e racistas da medicina nazi. A Coca-Cola inventou a Fanta, em plena guerra, para o mercado alemão. A IBM tornou possível a identificação e classificação dos judeus, e essa foi primeira façanha em grande escala do sistema de cartões perfurados.
– Milhares de anos antes que a invasão norte-americana levasse a civilização ao Iraque, nessa terra bárbara havia nascido o primeiro poema de amor da história universal. Em língua suméria, escrita no barro, o poema narrou o encontro de uma deusa e um pastor. Inanna, a deusa, amou nesta noite como se fosse mortal. Dumuzi, o pastor, foi imortal enquanto durou essa noite.

Dante Mendonça [20/04/2008]O Estado do Paraná.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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