“Poderia ser a notícia de jornal sobre o homem que foi matar a sede e morreu afogado”

© Glória Flüggel

Alguns detalhes fornecidos pela notícia: o fato ocorreu no mato e no meio do mato havia samambaia, tamanduá, cachaça, bicicleta, diamante, cebola, peixe, ferradura, pedra, geada, repolho, goiabada, violão, urubu, mandioca, sabiá, barro, cipó, capim, papagaio, guaraná, carvão, onça, bandeira, chuva de verão, paçoca, mandioca, bambu, maria-mole, palmeira, reco-reco, pão com manteiga, chorão, óleo diesel, tatu, bolacha maria, mandacaru, quero-quero, arame farpado, rio, avestruz, águia, burro, borboleta, cachorro, cabra, carneiro, camelo, cobra, coelho, elefante, cavalo, galo, gato, jacaré, leão, macaco, porco, pavão, peru, touro, tigre, urso, veado, vaca e pau-rosado.

Era o que havia no meio do mato. O sedento viajava a cavalo, carregava um mosquetão e usava botas.

Antes de falar do afogamento do homem é preciso conhecer a sede do homem.

O homem, solitário, conversava com o cavalo:

– Vou morrer de sede. É tamanha a sede que só pode ser sinal de morrer de sede.

– Mas num mato assim tem água – disse o cavalo.

O homem não respondeu. Sabia que naquele mato havia água. O mede de morrer de sede era coisa só dele.

– Tem uma fonte perto – insistiu o cavalo, farejando, e com sede, mas sem medo de morrer de sede.

– Não me amole – gritou o homem.

O cavalo ficou quieto. A viagem continuou. Eles voltaram a conversar, mas coisa sem importância porque nenhum dos dois quis falar de novo de sede e fonte.

A sede chegou à fonte.

– Não vou mais morrer de sede – disse o homem para o cavalo, que preferiu ficar quieto e decidiu não beber água.

O sedento mergulhou na fonte e bebeu água. Afogou-se.

Após o afogamento do homem, o cavalo disse em voz alta:

– A fonte que não mata a sede, ele encontrou a fonte que mata o sedento.

O cavalo enfiou os dentes na roupa do morto e saiu arrastando o corpo pelo mato, sem destino.”

Fontes Murmurantes. 1985, Manoel Carlos Karam

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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