Porque Hoje Não é Sábado

© Myskiciewicz

Josefina dos Prazeres, doméstica, 38 anos. Tem três filhos (todos foragidos) e uma Vemaguet 65 (presente do Dr. Raimundo). Assim como Platão, ela tem uma visão otimista do mundo, o que lhe permite conciliar a mística com a razão, isto é, com a ciência e com a moral, isto é, com a ação. Nas horas vagas, Josefina lava, passa varre, encera, tira o pó, cuida das crianças, faz uma farrinha com o Ribamar e ouve rádio. Acha que toda vida tem seu custo, mas não entende os exageros do custo de vida. O que mais sente atualmente é uma imensa dor de dentes, além de muitas saudades de Caixaprego, onde deixou a alegria e a virgindade.

O primeiro livro: Nesse tempo eu já era empregada doméstica.
O último: “Todos os Homens da Cozinha”, de Dona Benta.
No porta-retratos: Jararaca e Ratinho, Swingle Singers, Anjos do Inferno, Bando da Lua e Trigêmeos Vocalistas.
Algum medo: Saber que Howard Hughes ainda está vivo ou ser atacada pelo Cauby Peixoto.
Seu herói favorito: O cavalo do Fantasma. Ah, e o Frank Sinatra.
Aquele amor inesquecível: Um velho disco 78 rotações do Trio Irakitan.
Uma cidade ideal: Os últimos dias de Pompéia, antes do imposto predial.
Um ideal de vida: Colaborar com a CIA nos fins de semana.
A morte assusta? Nem matando!
E o trânsito? Já namorei um guarda desses.
Aceita conselhos? Não. Só leio anúncios de eletrodomésticos.
A grande alegria: Meu filho, Raimundinho.
A maior frustração: Ser demitida da casa do Dr. Raimundo.
Mini-saia. Saudades? A Espanha, por esse motivo perdeu para a Alemanha as suas ilhas no Pacífico.
Conselho. Pode dar? Quem faz isso é comercial de televisão e padre no confessionário.
Ano 2.000. Chegaremos lá? Depende muito do trânsito. Mas os mistérios de Mitra, como todos os cultos orientais, dizem que não.
O resto é silêncio. E daí? Daí começa a bandalheira, segundo Sartre, se a Simone de Beauvoir não estiver por perto.
Estão fazendo muito barulho? Quem? As multinacionais? Os corinthianos? Os corruptos?
As crianças incomodam? Em que sentido? Longitudinal? No meio de campo? Criança incomoda um pouco quando está no útero.
O campo ou a cidade? Estaremos nós, simples seres humanos, diante de perguntas eternamente sem respostas?
À noite sonhamos? Quando a TV sai do ar eu caio nos braços de Morfeu. Ou do Ribamar.
Quem matou Augusto dos Anjos? Ah, não sei. Esse negócio de polícia não é comigo.
O sonho acabou? Sim, mas ainda tem cuque.
Intolerância. Algo pior? Unha encravada, bife mal passado e qualquer um dessa geração cheese-bucho.
Um doce: Dr. Raimundo.
Uma pesquisa que apreciaria fazer: A influência da erva-cidreira na prática sexual entre holandeses.
Um compositor: Dois. Dostoievski e Agepê.
Drama ou comédia: Média, com pão e manteiga.
Uma viagem: A volta ao mundo em 80 dias, sem depósito compulsório.
Defina Curitiba: Uma cidade que fica perto de Ponta Grossa, porém distante de Salvador.
Quem faz a cultura brasileira? Todos os que estão fazendo, menos os que não.
Uma cor: A cor do híbrido da égua com o jumento quando debanda em fuga, ou seja, cor de burro quando foge.
Voar é bom? Com um pára-quedas perfeito vale a pena.
O maior sonho: Recheado com queijo e marmelada, 20 cms de diâmetro, feito na confeitaria “Tem Pães?”

Prof. Thimpor, década de 70. Como se vê, na época, eu já tinha a minha coluna Porque Hoje Não é Sábado, na Grafipar|Gráfica e Editora.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo “Se não for divertido, não tem graça.” Contato: luizsolda@uol.com.br

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