Quarenta de novo

Tudo é motivo para alguém me prescrever ou recomendar colonoscopias

Vi neste jornal, na semana passada, um pequeno anúncio que dizia “Coroa-Metade é o aplicativo de paquera para quem tem mais de 40 anos”. Nesta hora, os defeitos de meu marido desfilaram pela minha mente como aquele resumão “melhores momentos” que, contam, revisitamos antes de falecer.

Recobrando os sentidos, estendi as mãos para os céus. É melhor ter um companheiro de vida a quem, vez ou outra, queremos esganar, do que fazer parte de um aplicativo com a palavra COROA no nome.

Acho até que tirei meus óculos de leitura, chutei para o alto a manta de lã que estava em minhas pernas e arrisquei um beijo de língua em Pedro. Ele virou a cara, achando que era piada. Como provavelmente diria alguém que sobreviveu a um infarto sem assistência, o mal de fazer muita piada é que quando a coisa é séria ninguém acredita.

Minha fisioterapeuta tem 29 anos e, recentemente, me perguntou se já estou na menopausa. Na mesma semana a assistente do meu dentista, 24 anos, ao me ver desesperada pra fazer xixi (depois de duas horas no trânsito), perguntou se era incontinência.

Eu sei que esse é o décimo texto com a temática “fazer 40 anos” que escrevo para essa coluna, mas é que está puxadíssimo para mim. Semana passada eu percebi, ao passar desodorante, que minha axila caiu. Eu me preparei para encaixar o roll-on “lá em cima” mas as axilas estavam bem mais pra baixo. Nos avisam sobre a bunda que deve desabar, os peitos que devem amolecer… mas um sovaco desistente?

Antes as pessoas falavam “Nossa, como você está bem!”. Agora essa frase sempre vem acompanha do “…pra sua idade!”. Antes eu me olhava pelada no espelho e pensava “eu pegava fácil”. Agora se eu demoro muito tempo pelada já me inflama a garganta. Fico sem saber se pararam de me paquerar nas ruas porque o feminismo venceu ou é meu colágeno que está vencido.

Contudo, o que não dá mais para tolerar é a quantidade de pessoas querendo conversar comigo sobre a importância da colonoscopia. Eu não posso mais espirrar, ficar triste, machucar a gengiva com pão sueco. Tudo é motivo para alguém me prescrever ou recomendar colonoscopias.

Há poucos meses eu tinha 39 anos e ninguém se metia com meu ânus. Foi fazer 40 que até o psiquiatra passou a ignorar minha ansiedade generalizada: “Isso não importa mais, me fale com que frequência você evacua e como são as fezes”.

Arrumando meu escritório, achei umas fotos de quando viajei sozinha, aos 23 anos, para Barcelona. Fiquei horas invejando meus braços finos, joelhos que andavam 15 horas por dia e não doíam, ombros e escápulas que aguentavam uma mochila pesada sem cagar por completo a cervical (me causando uma daquelas enxaquecas que duram semanas).

Mas o que mais me comoveu é que vi naqueles olhos a mesma vivacidade curiosa que hoje me leva a explorar o Walmart, a Leroy Merlin e a Decathlon. Meu Deus, como sou feliz nesses lugares. Posso me ver ali parada na fila, segurando um varal de teto e muitos cabides como prêmios honrosos pela conquista de uma vida adulta banal.

Não é fácil abrir mão da juventude pra ser infeliz, mas é o que todos, lá no fundo, queremos. É o sinal de que atravessamos a onda gigantesca e estamos tediosamente flutuando em um rio morno sem peixes-espadas ou elétricos. Não acho ruim, na verdade. Muito pior seria continuar brigando com as ondas enormes com esses joelhos, essa cervical e sem ter feito ainda uma colonoscopia.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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