R$ 200, avanço ou retrocesso?

Seja como for, não é uma surpresa ver, mais uma vez, o Brasil na contramão da história

Ao lançar a nota de 200 reais, o Brasil se coloca na contramão do que vêm fazendo economias mais avançadas, que é abandonar cédulas e moedas em favor de transações digitais ou por cartões.

A tendência de desmonetização é liderada pela Suécia, onde menos de 2% das transações ocorrem com papel-moeda e mais de 50% das agências bancárias já não trabalham com dinheiro vivo. Mas várias outras nações vêm tirando cédulas, principalmente as de alto valor, de circulação. A UE acabou com a nota de 500 euros, passo que já havia sido dado décadas antes nos EUA com a descontinuação das cédulas de 500, 1.000, 5.000, 10.000 e 100.000 dólares.

E nem dá para afirmar que essa seja uma exclusividade de países ricos. A Índia teve uma experiência desastrada com a eliminação de notas de 500 e de 1.000 rúpias em 2016. Mas o Quênia se dá bem com o m-pesa, a moeda digital operada por celulares que ganha espaço em outras nações.

O principal atrativo da desmonetização é que ela representa um golpe contra o crime. Assaltantes, traficantes, corruptos, sonegadores etc. operam melhor quando o dinheiro que usam não traz memória de como foi adquirido ou de como é gasto. Só cédulas oferecem tal nível de anonimato. É claro que bandidos, pelo menos os mais sofisticados, poderiam correr para ativos como ouro e bitcoins.

Outra vantagem importante é a eliminação do custo do dinheiro, que começa com a impressão das notas, passa pelo transporte de valores, a instalação de caixas eletrônicos e culmina nos explosivos usados para roubá-los.

A desvantagem mais clara é a perda de privacidade. Num mundo de transações digitais, poderia em tese existir um registro completo de onde e como gastamos cada um dos centavos que acumulamos ao longo da vida. É bem mais que o Google, que guarda apenas nossas preferências.

Seja como for, não é uma surpresa ver, mais uma vez, o Brasil na contramão da história.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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