Rui Werneck de Capistrano

© Myskiciewicz

Os sonhos são mistérios revelados em forma de criptogramas. Porém, tão logo nos acometem, tão mais depressa nos deixam. Os que nos lembramos e contamos pouco nos revelam, pois muitas vezes nos falta a chave do significado deles. Aqueles que sumiram novamente é que poderiam ser os pontos mais altos do ‘mistério desvendado’ e que, infelizmente, ou felizmente, não o foram. Infelizmente, porque somos curiosos natos.

Será que o mistério da vida estaria embutido num sonho e saber dele nos tornaria poderosos? Felizmente, porque, se descobríssemos, talvez nem quiséssemos mais dormir. Uma das virtudes do sono: sonhar. A outra seria descansar o corpo. Dormimos todas as noites para pescar novamente aquele sonho maior que nos escapou, igual ao peixe maior. E ele sempre escapa.

Freud já disse que o sonho nos prepara para o dia. Sempre acordamos com um sonho. Quanto mais nossa vida é monótona e sem cor, mais os sonhos são agitados e coloridos. Há uma tentativa do nosso inconsciente de manter o equilíbrio das funções do corpo com a vida lá fora. Os sonhos fariam parte da nossa vital homeostase. Falo isso por mim. Podem existir outras interpretações mais científicas. Mas, se minha vida está bem movimentada, o sono é mais profundo e os sonhos desaparecem tão logo acordo. Não me lembro deles. Se estou em fase de retiro, de pouca atividade, os sonhos me acompanham durante o dia, por um bom tempo. Fico me lembrando deles. Esse é o equilíbrio vital que imagino ser de grande importância. Quando quero só dormir e dormir é porque quero sonhar. Quero viver nos sonhos o que não vivo acordado. Mesmo que o corpo reclame depois de tanto descanso. Que acorde doído de tanto dormir. Não creio ser importante saber o que um sonho quis dizer.

Importante, pelo menos para mim, é que o equilíbrio seja mantido. Aí vou eu, dormindo e sonhando. Shakespeare perguntou se durante o sono da morte sonharíamos. Acho que não é preciso sonhar. Não haverá dia seguinte.

É sonhador, mas não dorminhoco.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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