Bloomsday – Conexão Curitiba

Sempre que pego pra reler a biografia de James Joyce — de Richard Ellmann — me dá uma vontade doida de ler Ulisses e Finnegans Wake. A vontade passa no primeiro capítulo do Ulisses e no primeiro parágrafo de Finnegans Wake. Um ser humano ideal seria uma mistura bem dosada de Ernest Hemingway com James Joyce. Do Hemingway seria a parte aventureira, cheia de gás, mundana, solar. Do Joyce, a parte da persistência, da inabalável fé em sua obra, da erudição, do sacrifício. O que um ser humano assim escreveria são outros quinhentos — ou quinhentas mil combinações de genes.

Escritor é sempre incômodo dentro de casa. A menos que more sozinho. Músico faz barulho, pintor de telas faz movimentos, deixa o cheiro das tintas no ambiente. Um escritor — entregue às palavras — só provoca tensão e desequilíbrio emocional em sua volta. A biografia de um escritor que não tenha vida social seria um tédio. Ele sentava por cinco horas diante do micro, sem comer nem beber nada, só escrevendo, escrevendo. Dá uma mísera linha na biografia dele e pode dar um conto, um capítulo de romance, um pedaço de novela pras suas obras completas.

Na longa e detalhada biografia de James Joyce não tem registro do momento de real empenho do escritor — sem se preocupar com choro de filho, pedido pra trocar uma lâmpada, ir à padaria, atender visitante ou aguentar chateação da mulher que quer sair. O biógrafo se esmera em procurar ação. Um escritor sentado só vale alguma coisa pros seus leitores — depois que o livro for lançado.

O Serviço de Meteorologia é falho. Claro, você vai dizer, erra muito. Não, não é por isso. É porque ele só faz previsão pro dia! É sempre assim: hoje o tempo fica assim e assado, com sol ou com chuva. Amanhã fica assim ou assado, com chuva ou com sol. Quer dizer, onde está a previsão pra noite? Pra quem sai ou trabalha à noite, como é que fica? Penso: bem, a lua é cheia, mas pode chover lá pelas dez. Vou levar guarda-chuva.

Neste negócio de ensino à distância, imagino um aluno de Meteorologia. Vejamos uma prova via internet:
— Onde você mora?
— Em Belo Horizonte.
— E como está o tempo aí?
— Bem, agora está firme, mas o vento está aumentando e trazendo muitas nuvens escuras. Acho que teremos chuva logo mais à tarde. Agora está quente, mas deve esfriar por causa da chuva.
— OK. Nota 8,5. Parabéns!

Alguns escritores escrevem seus livros de memórias… só que a gente nem se lembra mais deles – os escritores. Nas bulas dos remédios sempre diz que NÃO TOMAR REMÉDIOS SEM INFORMAR AO MÉDICO. Ah, tá! Nenhum médico me informa que vai escrever um livro de ficção!

Rui Werneck de Capistrano bate com as duas

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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