Rui Werneck de Capistrano

© Myskiciewicz

Na vasta e devastada seara alheia habita um parasita de olhos bem abertos e estômago cheio: o profeta. Cioran (duas gotas após as refeições) disse que dentro de cada homem dorme um profeta pronto pra atacar, prescrever, anunciar. Longe de mim estar perto disso. Apenas constato e lanço, às vezes com pouco tato, pra pessoas de fino prato e baixela de prata. Abra alas e asas, faça ouvidos de mercador de carros, tranque as portas da percepção. Haja o que houver, aja como quiser.

Desencontros marcaram o fim de semana. Nem eu mesmo encontrei comigo. Estava ausente de qualquer propósito. Naveguei nas vagas estrelas da ursa maior. A noite estrelou meu filme. Notícias explodiram como bombas no Iraque. Fediam firmes propósitos e exalavam perfume de rosas nas entrelinhas das estrelinhas.

Uma notícia: o Brasil é campeão mundial de raios. Setenta milhões riscam os céus todos os anos em busca de algum lugar tranquilo para descansar na terra. Um Cristo, aqui, seria eletrocutado, morto e sepultado. No terceiro dia ressuscitaria como cordão de lâmpadas de Natal — made in China — enfeitando uma árvore de rua. Blim-blom! Raios me partam!

Já sai outra notícia quentinha: as mulheres pensam mais do que os homens. Por isso, estão mais sujeitas às neuras, às pressões da vida social. Os psicólogos denunciam e os consultórios terapêuticos comprovam. Ainda bem que penso pouco, devido à minha precária condição de pertencer ao cambaleante sexo masculino. Ó, raios! Ó, mulheres!

Condições de subsistência: cachorro filhotão no quintal e roupas no varal não se dão bem. O Sol é testemunha. Num rasgo de animação ele rasga as roupas.

Trim-trim! Do outro lado da linha, me confortam: leite fervendo e derramando por cima da leiteira faz parte do mobiliário doméstico. Calma! Não é descuido de hoooomem na cozinha, não. Bon jour! Ulalá, merci! Oui, excuse moi! Limpar o fogão depois é a pena mais leve que o Tribunal da Humanidade pode impor. Ria o leite do Chico Buarque derramado. Aqui estou eu, de novo, falando sozinho com você.

É autor de várias milongas e vastacurtas

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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