Rui Werneck de Capistrano

Tem palavra que veio de longe com significado que nós não vemos de perto. Cada vez que descubro uma em situação assim, vibro. Aqui e agora, é o caso da palavra esnobe. Posso perguntar de olhos fechados no meio de um salão com mil pessoas e todas vão dizer que esnobe é o cara que é cheio de si, se acha, é rico e tem nariz empinado. É ou não? É o cara se quer acima na vida e não dá bola pros outros.

Em suma, que esnoba os outros. Em meu ofício de escritor, em primeiro lugar as palavras. E o lugar delas é o dicionário e outros livros. Além das que são proferidas nas conversas. Uma vez o Ivan Lessa, que é outro catador de palavras, falou de um livro de etimologia que estava saindo do forno. Ele folheou e não gostou. O autor não ia fundo no poço pra contar sobre a origem das palavras. Eu, de minha parte, gosto quando encontro uma origem bem fundamentada e que me ajuda na escrita.

No caso de esnobe, eu sabia que no original se grafa snob, mas nem atinava o que queria dizer. É claro que usava no sentido moderno, que significa tudo aquilo que já disse antes. Aí, num livro de Ortega y Gasset chamado A Rebelião das massas (não é das massas de comer!), encontrei o real significado de snob. E é francamente o oposto do que nós conhecemos! Pode isso? Veja: na Inglaterra de tempos atrás, as listas das residências indicavam junto a cada nome o ofício e a classe da pessoa. O nome dos simples burgueses era acompanhado da abreviatura s. nob., que queria dizer sem nobreza! Sine nobilitate (em Latim). Ralé! Segundo Ortega Y Gasset é o homem-massa, previamente esvaziado de sua própria história e sem entranhas de passado. Só tem apetites, crê que só tem direitos e nenhuma obrigação. Aqui se transformou em pessoa que se acha superior, que sabe mais, que dá de ombros pras idéias dos outros.

Por essas e outras é que mergulho no reino silencioso das palavras. Às vezes, pego um peixe bom. É comida pra alguns dias. Depois, trato de limpar o arpão e… tchabuuum!

Rui Werneck de Capistrano é autor de Nem bobo nem nada, primeiro romancélere do Brasil – com 150 capitulozinhos do capeta.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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