Rui Werneck de Capistrano

Existem centenas de variedades de livros que abrigam Sentenças, Pensamentos, Apotegmas, Máximas e Raciocínios Rápidos. Antigamente, os torneios de linguagem eram do gosto dos leitores. Pareciam vir de pessoas educadas. Como diz W. S. Maugham o tempo tornou exasperadora essa maneira de escrever. Imagine a frase: Afastai os olhos de certos jornais; não vedes como pululam neles as moscas negras da adulação e da baixeza? São a entrada de uma cloaca? São um pântano? São isso e muito mais; é ali que as libélulas miseráveis da inveja ensaiam seus voos letárgicos sobre charcos tornassóis dessa literatura putrefacta; se não sois um crítico ou um escravo, fugi desse reino de larvas em putrefação.

Ela é apenas risível, hoje. Mas já teve força de mudar a cabeça de algumas pessoas. Um dia pensei em escrever uma peça de teatro que começaria com pessoas num bar falando a mais ‘pura’ linguagem hiphop, que se pode abreviar por M*F* (do inglês Motherfucker). A evolução da peça seria a ‘involução’ da linguagem (da atual pra mais antiga).

Basicamente, a relação de um casal que a fala M*F* e vai ‘regredindo’ pra linguagem antiga. Não tão antiga quanto a da frase acima, mas aquela que abriu a escritura moderna, a literatura moderna. Acredito que daria pra fazer uma peça bem interessante. Já te contei que num período negro, de vacas esqueléticas, eu fazia revisão de textos? Um senhor bem idoso me chamou e pediu que revisasse cuidadosamente seus textos. Ele ia fazer apostilas. Levei e comecei a ler. A linguagem era ‘escorreita’, num português ‘castiço’. Frases labirínticas, torneadas e virguladas ao extremo. Me assustei. Revisei como pude. Só depois de algum tempo ele foi se abrindo comigo e disse que eram apostilas pra curso de iniciação ao Espiritismo. Imaginei que as pessoas a quem ele queria atingir eram ‘iniciadas’ naquela linguagem.

Mas, me enganei. Ele contou que havia feito um ‘folder’ e distribuído cinco mil nas redondezas. Apenas uma pessoa ligou pra saber o que era aquilo. Uma só. Como publicitário, vi o erro logo de cara. Era a linguagem. Parecia Dom Quixote falando. Não tinha erros de português, mas de ‘approach’. Pensei em fazer um folheto pra ele. Pensei em me enfronhar no assunto. Mas vi que seria cansativo e improdutivo. Ele já estava na idade em que não mudaria mais a cabeça. E eu teria que acreditar na proposta dele pra entrar de cabeça nela. Não deu pé. O incrível é que ainda existem milhares de pessoas que escrevem numa linguagem antiga. E, talvez, pensem assim.

RUI-19 É pesquisador de linguagem e linguajar

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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