Infalível Murphy

Ruy Castro – Folha de São Paulo

RIO DE JANEIRO – Outro dia, em Copacabana, o taxista sugeriu que talvez nos livrássemos do engarrafamento na avenida Atlântica se fôssemos por dentro. Eu disse OK. Ele virou à esquerda e saímos numa avenida Nossa Senhora de Copacabana parada e ainda mais cheia. Perguntou a um colega e ficou sabendo que, lá na frente, dois carros tinham acabado de bater -daí a razão de estar tudo congestionado. Deu com as duas mãos no volante: “É a lei de Murphy!”.

Levei um susto. No passado, citar a lei de Murphy era uma brincadeira entre os iniciados. Murphy, claro, é o autor da frase “Se alguma coisa pode dar errado, dará”. É uma frase profunda -sobre o destino do homem, a inevitabilidade do fracasso, a falta de sentido do Universo, sei lá. Tinha mesmo de virar lei. E quem é esse Murphy? Não se sabe ao certo -pode nem ter existido e, se existiu, não sabe que criou sua própria lei.

Para fins contábeis, o verdadeiro Murphy é um escritor americano chamado Arthur Bloch, autor também de uma frase que complementa a lei original: “Não apenas dará errado, como isso acontecerá no pior momento possível”. E de um corolário ainda mais arrasador: “Murphy era um otimista”.

Bloch fez para nós, em pílulas, o que Schopenhauer e Nietzsche levaram a vida construindo: uma visão pessimista, logo realista, do mundo. Mais frases: “Se há possibilidade de várias coisas darem errado, dará errado a que causar mais prejuízo”; “Dixadas à própria sorte, a tendência das coisas é piorar”; “Toda solução cria novos problemas” etc.

O que me deixa contente é que um humilde taxista carioca foi desencavar um autor famoso nos anos 1980 e, depois, deixado de lado. O preocupante é que, se a lei de Murphy já chegou às classes populares, é porque até elas já sabem que, não importam os acertos do percurso, no fim vai dar errado. 

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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