Rui Werneck de Capistrano

SOSdois

Mais um mergulho rápido no reino das palavras. E de lá tiro, ainda viva e molhada, a palavra rípio. Menos de um por cento das criaturas humanas deve saber o que quer dizer isso e pra que serve. Pior ainda se for apenas um esnobe, um da ralé — que dá de ombros. Dessa vez visitei Sobre a literatura, de Umberto Eco. Depois de várias páginas de bons fluidos literários, no capítulo Sujeiras da forma, ele aborda o rípio.

Claro que o Eco é bem informado e escreve coisas que eu não alcanço pela minha solene desinformação de crítica literária. Porém, saquei que os rípios são golpes, fragilidades, remendos, consertos, deslizes, quedas de tensão e até mesmo as desventuras que contaminam a pretensa harmonia e a essencialidade da estrutura da obra. Ou seja, rípio é o momento em que o autor enche linguiça pra que o assunto possa continuar mais adiante. Eco diz que os rípios são pontos de apoio pro andamento do conjunto — pontes, soldaduras. E ele cita outro estudioso chamado Pareyson que diz que nesse ponto — no rípio — o autor opera com menos cuidados, com impaciência e até mesmo com indiferença. Tudo em nome do conjunto e da continuação da obra. Certamente você já leu textos assim e nessa hora fica doido pra pular a parte que não tem nada a ver. O que eu já tinha reparado e por minha conta cortei dos textos foram aqueles rípios que muitos escritores de hoje ainda usam. São palavras que reforçam os diálogos. Tais como:

— Bom dia!, disse alegre D. Dulce.
— Bom dia!, retribuiu o Sr. Carlos.
— O sol está quente, frisou D. Dulce.
— E não parece que vai chover, acusou Sr. Carlos.
— Vai assim até sábado, obtemperou D. Dulce.
— Sim, completou Sr. Carlos.

Só aí temos vários rípios prontos pra serem decapitados. Por isso, Mário de Andrade dizia que a arte era cortar mais tarde as coisas fastientas, repetitivas, atravancantes do texto. Rípio me dá arrepios. Eu corto.

RUI-19

Rui Werneck de Capistrano é Caçador de Rípios

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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