Sessão da meia-noite no Bacacheri

Fiona (Fiona Gordon) é uma bibliotecária canadense que recebe uma carta misteriosa de Martha (Emmanuelle Riva), uma tia distante. Na carta, ela pede que a sobrinha viaje imediatamente a Paris, para evitar que seja internada em um asilo. Sem ter a menor ideia do que está acontecendo e nem mesmo onde a sua tia se encontra, Fiona viaja até a cidade e começa a buscar sua parente distante. França, Bélgica|2017| Direção de Fiona Gordon e Dominique Abel|1h 23min|

Perdidos em Paris: Farsa lúdica

É sempre interessante ver trabalhos de cineastas que, cada um à sua maneira, encontraram uma linguagem narrativa tão particular que pode ser classificada como sua assinatura cinematográfica. Assim é Quentin Tarantino com o uso da violência em meio a diálogos espertos relacionados à cultura pop, Wes Anderson com sua estética rebuscada envolta a personagens desconexos, Woody Allen com suas questões de fundo filosófico e por aí vai. Por mais que não possuam a mesma notoriedade, a dupla Dominique Abel e Fiona Gordon seguem o mesmo caminho. Juntos há 40 anos, nos palcos e em casa, eles estão de volta ao cinema através do delicioso Perdidos em Paris.

Autores também de Rumba e O Iceberg, Fiona e Dominique integram o restrito grupo de cineastas que precisam mergulhar por completo a cada novo trabalho, de forma a criar algo absolutamente pessoal. Desta forma, assumem não só a direção como também o roteiro e estrelam a história por eles desenvolvida. Assim também é em seu novo longa-metragem, onde mais uma vez é possível notar seus estreitos laços com o teatro e o farsesco, muitas vezes explorando o lúdico a partir do humor corporal.

Tais características ficam nítidas logo na abertura do filme, quando um Canadá escancaradamente fake é retratado a partir de um vilarejo isolado em meio à nevasca. A inusitada coreografia estabelecida no mero abrir de porta traz ao filme uma afeição imediata, provocada pela graciosidade estabelecida a partir de ideias tão criativas e, ao mesmo tempo, simples. Assim é o cinema de Fiona e Dominique: sem reinventar a roda, eles usam elementos cênicos que remetem à época do cinema mudo para encantar a partir de situações corriqueiras, analisadas sob uma bem-vinda ingenuidade.

É a partir destes preceitos que o espectador tem a chance de acompanhar a trajetória da interiorana Fiona rumo à cosmopolita Paris, onde encontra um vagabundo de bom coração no melhor estilo Carlitos. Juntos, eles se encontram e desencontram, sempre em busca da octogenária Martha (a grande Emmanuelle Riva, em seu último papel no cinema). É a deixa para uma sucessão de esquetes cênicos criativos e variados, como a ida a um restaurante chique e a presença em um funeral, sempre apresentados com bom humor e uma trilha sonora bucólica.

Investindo também em estereótipos clássicos dos turistas que visitam a cidade-luz, imediatamente identificáveis, Perdidos em Paris aposta no lúdico como meio de entreter o público. Se por vezes a narrativa aparenta girar em círculos, o filme compensa tal situação com uma leveza constante traduzida não só pelas situações retratadas, mas também pelo carisma dos protagonistas. A curta duração, com apenas 83 minutos, também ajuda a evitar um certo cansaço na proposta narrativa.

Sem medo de escancarar o farsesco, especialmente ao retratar o Canadá, Perdidos em Paris se realimenta do cinema ingênuo de antigamente para trazer um frescor que flerte com o contemporâneo, a partir da relação das pessoas com a cidade-título. Destaque para a belíssima sequência musical apenas com os pés, estrelada pelos veteranos Emmanuelle Riva e Pierre Richard, capaz de arrancar com facilidade um sorriso aberto. Muito bom.

Francisco Russo

Filme visto no Festival Varilux de Cinema Francês 2017.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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