Sessão da meia-noite no Bacacheri

saragoca

Durante as Guerras Napoleônicas, dois oficiais inimigos encontram um velho manuscrito num casebre espanhol. São os curiosos relatos de Alfonse Van Worden (Zbigniew Cybulsky), um militar belga que durante sua jornada pela Espanha cruzou com dois enforcados que costumavam morrer e ressuscitar, duas irmãs incestuosas com poderes especiais de sedução, conheceu histórias sobre tarô e tradições cabalísticas, entre outras tantas aventuras.

O Manuscrito de Saragoça/ Rekopis znaleziony w Saragossie/Direção de  Wojciech Has/Polônia|1956/(3h 02min), preto e branco. 

Em 1994, Quentin Tarantino impressionou meio mundo cinematográfico com a narrativa não linear de ”Pulp Fiction – Tempo de Violência”. Longe de ser uma novidade, o diretor tem seus méritos: soube conjugar um espírito pop delicioso com a narrativa intrincada, utilizou muito bem John Travolta, que andava esquecido na época, e aproveitou-se de um tipo de humor cool, bem típico dos anos 1990.

Mas esse filme súmula parece de uma caretice tremenda quando comparado a ”O Manuscrito de Saragoça”, a obra-prima realizada pelo diretor polonês Wojciech Has em 1965. Isso se não resolvermos comparar com o recente ”A Origem”, de Christopher Nolan. A surra seria indescritível.

Sua narrativa manda Tarantino para o jardim da infância do cinema: dois oficiais inimigos encontram-se num casebre espanhol durante as guerras napoleônicas. Lá eles encontram o manuscrito do título, que faz com que as inimizades sejam esquecidas em favor da leitura atenta das histórias ali presentes.

Vamos, assim, para a história-base do filme, que acompanha um militar belga vivido pelo grande astro polonês Zbigniew Cybulski (de ”Cinzas e Diamantes”, o clássico de Andrej Wajda). Em sua jornada, ele encontra outros personagens, incluindo dois enforcados que costumam ressuscitar, duas irmãs que se amam e amam os homens lançando-os feitiços.

Conforme ele vai encontrando as pessoas, novas histórias surgem, e em determinado momento temos dificuldade de acompanhar em que camada estão as histórias, pois cada personagem no filme narra a sua, e elas frequentemente se encontram, numa multiplicação original dos pontos de vista (e é aí que Tarantino perde feio na comparação).

”O Manuscrito de Saragoça” era adorado pelo diretor espanhol Luis Buñuel (de ”A Bela da Tarde”), que em sua autobiografia revelou: ”filme que vi três vezes, o que é excepcional”. Podemos entender o porquê. Com seu clima onírico, e suas histórias que se encavalam, se confundem e se estilhaçam durante as três horas de duração, é prato cheio para quem sempre contribuiu com a arte surrealista.

Os méritos do filme, entretanto, não param aí. Com movimentos de câmera esplendorosos, dignos dos grandes momentos de Max Ophuls (”Lola Montès”), Andrei Tarkovski (”Solaris”) e Kenji Mizoguchi (”O Intendente Sansho”), e uma fotografia impecável em preto e branco, é plasticamente tão belo que por vezes sentimos vontade de dar pausa no DVD para ficar admirando as composições e os cenários.

Com este filme fica completa a trinca de obras-primas do cinema polonês nos lançamentos em DVD no Brasil – ”Cinzas e Diamantes” (Andrej Wajda, 1959 – lançamento da Aurora), e ”Madre Joana dos Anjos” (Jerzy Kawalerowicz, 1961 – da Lume) são os outros títulos.

Sérgio Alpendre

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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