Shazam! ao contrário

Sergio Moro não se veste mais de Sergio Moro. Veste-se agora de Jair Bolsonaro

Nelson Rodrigues escreveu certa vez que, ao passar por Guimarães Rosa na rua, achava que, todas as manhãs, antes de sair, o autor de “Grande Sertão: Veredas” abria o armário e se vestia de Guimarães Rosa. Por acaso, tive a oportunidade de confirmar isso. Vendo Guimarães Rosa à espera de um táxi numa esquina de Copacabana, concluí que ninguém era mais Guimarães Rosa do que o próprio. Alto, muito aprumado, abraçado a um livro enorme –talvez um mapa do Itamaraty, cuja Divisão de Fronteiras chefiava–, seus óculos refletiam as nuvens. Mas, se Guimarães Rosa não pudesse ser Guimarães Rosa, quem poderia?

Sergio Moro, ministro da Justiça do governo Bolsonaro, faz diferente. Todas as manhãs, em vez de se vestir de Sergio Moro, veste-se de Jair Bolsonaro. Como suas constituições físicas são diferentes –Moro, muito mais corpulento–, os terninhos apertados, estilo Ducal, de Bolsonaro, parecem espremê-lo. Mas, pelo visto, isso não o constrange. Moro desfila mal-ajambrado perante a nação, como se ainda fosse o antigo Sergio Moro que se vestia a caráter para suas funções em Curitiba.

Ao trocar a toga pelo uniforme de um político cujo discurso de campanha já fazia prever o pior, Moro se arriscou a ter de trocar de farda segundo cada situação.

Sempre que dá à praia um peixe podre envolvendo o governo a que agora serve –um filho do presidente suspeito de tramoias, outro que arrota ameaças contra as instituições, um ministro acusado de pilantragens eleitorais–, ele escorrega rumo ao silêncio. Mas, há dias, quando uma suspeita envolveu o próprio Bolsonaro, Moro, ao contrário, correu em sua defesa como se tivesse acesso aos autos da investigação.

Assim como José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça de Dilma Rousseff, reduziu-se a advogado particular de Dilma, Moro está fazendo o mesmo perante Bolsonaro. Continua a gritar “Shazam!”, só que ao contrário.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
Esta entrada foi publicada em Ruy Castro - Folha de São Paulo e marcada com a tag , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.
Compartilhe Facebook Twitter

Deixe uma resposta