Tela, cautela e Nutella

Cinco horas por dia na frente do iPad fazendo aula online é inédito na história

“Queridos pais e mães. Não sei se já falaram disso aqui no grupo: como é que seus filhos tão lidando com o ensino remoto? Os meus tão muito ansiosos, não querem fazer, choram… Tô em dúvida se insisto, se desencano do homeschooling ou se desencano do meu emprego e fico todas as tardes ao lado deles, ajudando. Digam lá.”

Gosto muito da escola dos meus filhos. Mais importante, eles gostam. Até março, ela, de 7 e ele, de 5, iam animados e voltavam entusiasmados, contando que “o polvo tem oito pernas”, “quando é dia aqui em casa é de noite lá no Japão”, “a mãe do Ernesto nasceu num país que tem nome daquele frango que a gente come no Natal e a música de ninar, lá, é assim: ‘los pollitos dicen, pío pío pío…'”.

Os dois nunca reclamaram de ir pro colégio, mas se um dia fizessem uma birra homérica e dissessem “hoje eu não vou!”, eu ignoraria. Confio na escola, sei que fará bem a eles e que um pouco de sofrimento faz parte do aprendizado, paciência.

Cinco horas por dia na frente de um iPad fazendo aula online, porém, é inédito na história da humanidade e comecei a me perguntar se forçá-los a serem cobaias, com tanto sofrimento, neste experimento social, não era como submetê-los a uma espécie de cloroquina pedagógica antes de termos estudos confiáveis sobre os efeitos adversos.

É difícil para crianças pequenas lembrar de abrir e fechar o microfone (nem nós lembramos), achar os links certos, encontrar as fichas dentro das pastas. Falar sem serem ouvidos. Reduzir todo o espaço escolar a uma telinha. Percebo que meus filhos se sentem sempre errando, em falta, abrindo o microfone quando tem que fechar ou pegando a ficha do broto do feijão na hora de pegar a do Sistema Solar.

(Eu e a minha mulher já brigamos algumas vezes. Ela tem certeza de que eu acordo de madrugada só pra esconder o jogo da memória de fundo do mar no meio das fichas de alfabetização, mas eu sei que é ela quem tenta me enlouquecer moqueando a ficha das cores em inglês no meio da pasta de matemática).

Fico com pena das esforçadíssimas professoras, que parecem estar tentando ensaiar “O Lago dos Cisnes” com um corpo de baile composto por Gremlins. Mas fico com mais pena ainda dos meus pequenos Gremlins, tropeçando no palco.

A escola está fazendo o que pode —muito em cima das nossas demandas de mães e pais preocupados com a perda de conteúdo e desesperados com crianças presas há seis meses em apartamentos. Mas, talvez, entre a nossa aflição e a dos educadores, as crianças estejam sendo expostas a uma tensão, a uma ansiedade e a um tédio desnecessários e danosos.

Felizmente, o grupo de zap da primeira série me tranquilizou. Alguns pais conseguem dedicar as tardes às crianças e têm tido um resultado satisfatório. Alguns desistiram por completo e estão plantando alface com as crianças na casa da avó em Araraquara. Alguns limitaram o número de horas. Outros misturam português com Patrulha Canina. Outros encheram a banheira de Nutella em março e só vão se preocupar com a escola quando a criança terminar de lamber a última manchinha marrom. Falei com a coordenadora, que também foi bacana ao aceitar que montemos um formato possível para a família.

Estamos vivendo um estado de exceção. Ninguém tem fórmula para a retomada da economia, a sobrevivência dos casamentos, para os lutos sem velórios ou sequer para a prática de atividades físicas ao ar livre. É bom expormos as crianças às aulas on-line com bastante cautela —e se mesmo a cautela for inútil contra o sofrimento, talvez não seja de todo o mal apelarmos para a Nutella.​

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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