Templo com Batman, Nemo e Che Guevara em Bancoc desorienta, mas é incrível

Zeca Camargo – Folha de São Paulo

Não exagero em dizer que Wat Pariwat é a descoberta mais incrível que fiz nos últimos tempos

A primeira reação é um ligeiro desconforto de ver algo que você não espera encontrar num determinado lugar, como num curto-circuito de conexões —uma sensação equivalente à branda tonteira que vem quando o registro do labirinto de seus ouvidos não bate com o que as imagens que seus olhos mandam ao cérebro.

Depois vem o riso, outra resposta conhecida do corpo diante do inesperado. E, enfim, o deslumbramento. Mas, por mais encantado que você esteja nesse passeio, seu cérebro nunca deixa de perguntar: “Por que eu estou vendo essas imagens do Batman, do Homem-Aranha, do Mickey, do Pikachu, do Capitão América (entre outros personagens), não num parque temático, mas num templo budista na Tailândia?”.

Na minha última passagem por Bancoc, encontrei esse pequeno tesouro por acaso. Pesquisando novos lugares para visitar, deparei com um nome pouco usual, na verdade, um apelido: o “templo de David Beckham”. Como assim?

Cliquei imediatamente naquele link e vi que não era brincadeira: as pessoas assim chamavam o Wat Pariwat —um templo relativamente novo na capital tailandesa— por causa de uma escultura do famoso jogador de futebol inglês que está bem na base do altar dedicado a um Buda lindamente iluminado por um neon colorido.

Aparentemente, um monge fanático por futebol pediu permissão para substituir a imagem de um Garuda (uma divindade alada) pela de Beckham —e foi o suficiente para que as pessoas passassem a venerar o “novo” ídolo e dedicar orações a ele.

Quando cheguei lá, queria logo descobrir onde estava o ídolo, mas tive meu foco sequestrado pelas outras figuras que decoravam o exterior e o interior de Wat Pariwat.

Luz do oriente

Além dos personagens de cartoon já citados, tinha um Che Guevara (no templo ao lado), um Albert Einstein (bem ao lado do altar). Era muito desorientador e maravilhoso. Sem resistência, me entreguei a esse delírio visual.

Em minutos, eu estava numa animada “caça ao tesouro” —ou ainda, num inusitado “onde está Wally?”—, procurando carinhas reconhecíveis pelas paredes do templo. Olha o Super-Homem segurando um pedestal. Aquele ali é o Pinóquio? O Nemo no pé do altar! E o que o Ursinho Pooh está fazendo subindo um árvore em plena cena de adoração a Buda?

Sem falar nas outras criaturas fantásticas, talvez ligadas à cultura pop da Tailândia (uma foca com dentes e tetas enormes, anjos com caras de javali, elefantes com escamas e rabo de peixe) espalhadas aqui e ali.

Figuras de um imaginário local? Ou quem sabe de uma mitologia moderna.

A chave para eu entender Wat Pariwat apareceu quando eu já estava indo embora e vi uma mãe com seu filho de uns seis ou sete anos, que carregava um balão com a cara do Homem-Aranha. Eles pareciam procurar algo —quando o menino viu o próprio super-herói no alto de uma janela, vibrou de alegria. Quem sabe aquele templo não estava simplesmente conectando uma nova geração com seus novos mitos, sem nunca abandonar o Buda?

Faces da Tailândia

Nos acostumamos a ver templos religiosos antigos com a reverência que normalmente dedicamos ao que é ancestral, às nossas tradições. Mas nos esquecemos de que as imagens que ilustram esses santuários um dia também foram contemporâneas. Então, me pergunto, por que só admirar o passado?

 Wat Pariwat nos obriga, de maneira fascinante, a reconsiderar nossa relação com o que adoramos —e eu não exagero ao dizer que essa foi a descoberta mais incrível que fiz em viagens nos últimos tempos. Uma tarde ensolarada,que provocou um questionamento sobre nossa própria relação com o sagrado.

Aquele garoto do Homem-Aranha nem desconfia, mas seu mapa de crenças e valores está sendo reescrito, depois de séculos de mesmice. Está aberto um caminho para quem passar por ali em 4018 se surpreender com as estranhas coisas que o ser humano cultuava dois milênios atrás.

E tenho certeza de que quem construiu Wat Pariwat pensou também nos arqueólogos do futuro ao incluir, num de seus pilares, uma coelhinha posando maliciosamente para um pau de selfie.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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