Ulisses em busca do tempo perdido

É causo histórico da literatura. Virou lenda. Foi descrito de várias maneiras — algumas aumentadas pela imaginação dos circunparticipantes. A verdadeira? Talvez tenha se perdido no tempo. O fato é que aconteceu o encontro de dois monstros sagrados — James Joyce e Marcel Proust. Teve data, motivo e lugar — 18 de maio de 1922, jantar no Ritz, Paris, depois da estreia de Le Menard, de Stravinsky.  Os anfitriões convidaram Joyce e Proust para o que se imaginava ser pura pororoca — o encontro das águas caudalosas e coleantes de Proust com as margens nunca plácidas de Joyce. Joyce foi de roupa de briga, Proust fez uma entrada triunfal vestindo um elegantérrimo casaco de pele.

Depois de apresentados, eles conversaram.

Joyce: — E aí, tudo bem?
Proust: — Meu estômago está me matando. Não devia ter saído de casa. Bem que mamãe falou. Ela me cuida como se eu tivesse quatro anos. Nem sabe que ainda não passei dos três.
Joyce: — Já tomou Lacto Purga?
Proust: — Já, não adiantou. E esse ar está irrespirável.
Joyce: — É, deviam limpar o ar com um detergente forte.
Proust: — Ó, céus! Eu morreria! E com você, tudo bem?
Joyce: — Meus olhos é que me torturam. Ontem chamei minha mulher assobiando. Pensei que era o Doguinho.
Proust: — Quem sabe não seria? As mulheres se disfarçam muito bem.
Joyce: — Ah, ouvi falar que no Brasil vai acontecer um evento artístico…
Proust: — Brasil? Brésil? Brazil? Onde fica? Artístico quer dizer circense?
Joyce: — Eles vão chamar de Semana de Arte Moderna.
Proust: — Acho que estão certos. Arte que dura mais que uma semana — fede.
Joyce: — (rindo) Verdade. Pra mim durou um dia — 16 de junho.
Proust: — Que frio! Se ligarem o ar-condicionado, eu morro!
Joyce: — Acho que nem inventaram ainda. Assim como não inventaram cirurgia de miopia. Como sofro!
Proust: — Essa comida é intragável. Amanhã estarei imprestável. Mamãe vai me dar óleo de rícino.
Joyce: — Eu não posso me queixar — pobre come de tudo. Nem vejo o que como! É uma piada!
Proust: — Olhe que ridículo aquele vestido! Ela parece um escovão virado de ponta-cabeça. O chapéu combina muito bem com o abajur lá do canto. Ó, céus!
Joyce: — Em compensação, aquela garçonete ali — dava um bom caldo.
Proust: — Será que vai chover amanhã?
Joyce: — Acho que não.
Proust: — Tenho que ir. Mamãe fica perturbada se chego depois das onze.
Joyce: — Vou tomar mais umas. Meu sangue ainda não está bem temperado. (Admirando-se) Marcel Proust, você deu mais que 200% acima da gorjeta oficial?! Com esse dinheiro poderia comprar todos os meus drinques por dez anos!
Proust: — Bondade sua, Joyce! Muito prazer em conhecê-lo. Um dia, se eu melhorar, vamos nos rever. Quero te mostrar minha coleção de gibis. Au revoir !
Joyce: — Se tiver um bom vinho francês na jogada… Santé ! Au revoir !

Saindo dali, Proust pensou: Podemos conversar a vida inteira, sem fazermos mais do que repetir a vacuidade de um minuto. Joyce, de olho na garçonete, divagou lá pelo futuro: the veripatetic image of the impossible Gracehoper on this odderkop in the myre, after his thrice ephemeral journeeys, sans mantis ne shooshooe, featherweighed animule, actually and presumptuably sinctifying cohronic’s despair…

Os dois nunca mais se encontraram. Proust morreu em dezembro daquele fatídico 1922, de gripe/bronquite/pneumonia. Joyce aguentou até 1941. Tinha uma soma cruel de males físicos, mas o fígado permaneceu normal até o fim, segundo o anatomopatologista.

Rui Werneck de Capistrano é autor de Nem bobo nem nada, o primeiro romancélere do Brasil.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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