Um condenado em seu labirinto

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Sandro Melanski. Foto de Albari Rosa

Na hora em que Sandro Marques Melanski diz a quanto tempo de prisão está condenado – 74 anos –, os olhos em volta saltam da cara. Não é sua única estatística surpreendente: foi preso aos 21, cumpriu 18 anos da pena, de modo que passou quase metade dos seus 39 anos atrás das grades. Esta semana, o detento soma mais um número à sua matemática: é o autor de (1) um livro – A teoria do sentimento: força que constrói e destrói, lançado com alarde pela J.W. Editora. Não esconde: espera que esse seja o primeiro número de uma nova contabilidade.

Ninguém deu muita pelota quando Sandro disse que escreveria um livro. Foi por volta de 2007 – ocasião em que cumpria regime fechado na PCE, em Piraquara. Dividia celas, como a “48”, com uma dezena de presidiários, e tinha de fazer das tripas coração para se concentrar. Conseguiu. Escrevia “na caneta” e chegou a dar o texto por acabado, para vergonha dos incrédulos. Até que uma rebelião, em 2010, deu cabo aos originais: os cadernos viraram cinzas, junto com os colchões, roupas e gentes.

Começou tudo de novo, frase por frase, agora na Colônia Penal. Para garantir seu resguardo de escritor, instalou-se no banheiro desativado de uma antiga capela, local que lhe servia de alojamento. O WC virou seu bunker. Nunca frequentou uma escola de datilografia, mas catou milho numa Olivetti velha até aprender, dando à luz a segunda versão da obra. Os originais são uma peça de arte – “batidos” com tinta gasta, na força, qual o último gesto de um condenado. José Mindlin compraria.

Sandro precisava ser contaminado por palavras para sobreviver a si mesmo.

Afastava-se da escrita apenas para cumprir tarefas de limpeza e serviços de cafezinho. Pelas suas contas, entre idas e vindas durante o expediente carcerário, consumiu cinco anos de trabalho. Esta semana, agraciado por uma licença especial, saiu por uns dias da penitenciária para lançar A teoria do sentimento, na Livrarias Curitiba do Shopping Palladium. O jornalista Nilson Monteiro está entre os que fizeram um relato emocionado do que viram e ouviram lá.

Não é fácil classificar o livro de Sandro – autoajuda, depoimento, religião, elogio ao poder da mente? Sugeri que mandasse uma cópia para o ensaísta francês Philippe Lejeune, autor de O pacto autobiográfico. Disseram-me que o visionário Lejeune coleciona relatos extraordinários de anônimos do mundo inteiro. Suspeito que gostaria de ter em sua biblioteca universal essa narrativa capaz de provocar vertigens, mesmo no mais experiente dos ledores. Aos fatos.

Ele relata – “tive uma explosão de sentimentos negativos. Não sabia que podia haver tanto ódio dentro de uma pessoa…” Lá pelas tantas de seu estágio nos infernos, lhe veio uma iluminação. Descreve-a de forma tonitruante, com tintas bíblicas – vai de Jeremias a Marcos, sem escalas, uma febre do cárcere. Impossível reproduzir sua fala, aqui ou nas novelas da Record. Uma passagem, contudo, resume seu épico interior. Sandro conseguiu ver na memória o “menino da Praça 11” que foi um dia, na Vila Nossa Senhora da Luz, e no que tinha se transformado. Lembrou que ajudava a cuidar de uma fieira de irmãos, que frequentava o “Grupão”– um alegre vileiro em chinelas. Que podia ter dado certo, mas virou inquilino do labirinto em que se meteu, pelo qual circulou com o cadarço de um calçado amarrado no do outro pé. Tinha de desfazer o nó cego e encontrar o caminho de volta para casa. A teoria do sentimento é o mapa que traçou para si.

Hoje, se lhe perguntam quem é, diz que é um crente, um sujeito que provou do perdão divino apesar do sofrimento atroz que causou a tanta gente. Vê-se no futuro dando testemunhos sobre a redenção de sua miséria. Não lhe faltam predicados. Fala bem e pelos cotovelos. Impressiona a inteligência afiada. É capaz de transformar obscuras passagens do Apocalipse em esquemas cerebrais ao alcance de todos. Não esconde a sina – safou-se do suicídio ou da depressão profunda graças à prática de esgarçar os nervos e os miolos, em busca de controle emocional. O exercício lhe obrigou a arrancar vocabulários das entranhas. Precisava ser contaminado por palavras para sobreviver a si mesmo.

Caso alguém ache isso tudo muito cinzento, um refresco. Entre outras, A teoria do sentimento é uma história de amor. Começou com uma carta. A penas tantas, estava ela na fila da visita de domingo, Danielle, a ex-namorada da adolescência. Ia lá para vê-lo. Mandou-a embora. Que procurasse um homem livre. Dani desobedeceu. A família só descobriu a paixão clandestina aos primeiros sinais da gravidez. A guria ouviu o diabo – às vezes ainda ouve. É verdade que também teve dúvidas, mas que nada. Ao ver o livro pronto, dedicado a ela, sossegou. Deu empate: sua teoria dos sentimentos estava tão certa quanto a dele.

José Carlos Fernandes – Gazeta do Povo

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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