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Calmo e sutil Sonoplastia é a maior virtude do filme. Calmo e sutil: assim é Post Mortem. Essa é uma obra chilena de 2010 que trata do drama de Mario (Alfredo Castro), funcionário de um necrotério, e as dificuldades que seu país atravessa. O filme segue um ritmo lento, ao ponto de incomodar e estimular a reflexão sobre as atitudes que o protagonista (não) toma. As cenas que normalmente teriam um ritmo mais acelerado acontecem devagar e de maneira delicada. A trama se passa às vésperas do golpe de Estado de 1973 e é o pano de fundo para mostrar um homem calmo e de poucas palavras. Apesar do contexto em ritmo acelerado por conta do regime militar que está sendo concretizado, o filme mostra a vida de Mario, que tenta achar o amor da sua vida, porém é incapaz de perceber tudo o que está acontecendo ao seu redor.

Comandantes das Forças Armadas do Chile deram um golpe de Estado que derrubou o governo de Salvador Allende, um marco na história do Chile, algo muito forte de se vivenciar. E Mario é cego a tudo isso, segue ali, vivendo a sua vidinha e tentando achar sua futura mulher.

Pablo Larraín acertou em cheio na sonoplastia ao abrir mão de trilha sonora. O valor dado aos sons ambiente valorizam as cenas. Nota-se a preocupação com o som que irá permanecer durante a obra. Há momentos em que o simples canto de um pássaro dá grande formosura à imagem. A junção dos sons externos com planos diferenciados dão vigor ao filme. Em Post Mortem o silêncio fala mais do que os personagens. O barulho do sapato do protagonista em um corredor vazio é fenomenal. Bonito para quem aprecia cinema.

Post Mortem demonstra grande sutileza. Todos os planos são diferentes, alguns dificilmente usados em grandes produções. Fazer diferente é o que atrai o espectador. Os atores entram e saem de cena e a câmera está ali, parada, dando importância ao cenário. Planos que são diferentes do padrão, nos quais a câmera está no chão e nem importa se está cortando a cabeça do ator; planos detalhe, mostrando a reação do personagem diante da situação. E não para por aí. Em alguns momentos, Pablo Larraín constrói um ambiente de suspense utilizando uma câmera viva. Com a “respiração” do quadro, por exemplo, o espectador se assusta quando ouve o grito de um ferido entre um grupo de defuntos que Mario carrega.

Esse filme mostra a vida de uma pessoa simples em cima de um acontecimento histórico da América Latina. Ele ensina como não se deve ficar à mercê e depender mais de si mesmo. Não ficar parado enquanto o mundo está despencado ao seu lado é o básico. Essa é a sensação que o espectador tem diante das situações que o protagonista passa.

Os planos detalhe colaboram com o clima reflexivo que impera na obra. Isso é ainda mais efetivo quando acompanhado de sua excelente sonoplastia. É isso que honra a sétima arte. Post Mortem é um grande trabalho. Será certamente fascinante para o espectador apreciar os cenários, ver os detalhes e praticamente se sentir dentro de cena.

 O filme “Post Mortem”, do chileno Pablo Larraín, uma coprodução de México e Alemanha foi o vencedor do  prêmio Índia Catalina dado ao melhor filme da concorrência oficial do 51º Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias.

“Post Mortem” conta a história de Mario Cornejo, que trabalha no necrotério da cidade de Santiago e enfrenta a personalidade introvertida e a apatia política de sua namorada nos dias de comoção depois do golpe militar, em setembro de 1973. A produção venceu outros 11 filmes de nove países diferentes para ficar com a láurea.  

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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