Wilson Bueno

mandrágora-20Em O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges, viajamos um zôo fantástico e, o mais das vezes, imortal decifração do que inscrevem, no luxo arquetípico da lenda, o lúbrico, o noturno, o insensato. Na (bela) edição da Emecê Editores (Buenos Aires, 1978), ao sabor do acaso, tão caro ao próprio Borges, lanço os dados e colho esta mandrágora voraz arrastandose pela noite com o seu veludo assassino.

“Como o ‘borametz’, a planta mandrágora é afim com o reino animal, porque grita quando a arrancam e esse grito pode enlouquecer quem o escuta.” (Romeu e Julieta, IV, 3); Pitágoras a chamou antropomorfa; o agrônomo latino Lucio Columela, semi-humana, e Alberto Magno pôde escrever que as mandrágoras representam a humanidade, inclusive com a distinção dos sexos.

Antes, Plínio já havia dito que a mandrágora branca é a mandrágora macho e a negra, a fêmea. Também os que desejam colhê-la traçam antes, ao redor dela, três círculos com a espada e miram o poente. O cheiro das folhas é tão intenso que chega a deixar as pessoas completamente mudas. Arrancá-la é correr o augúrio de espantosas calamidades.

Flávio Josefo, em seu livro Guerra Judia, nos aconselha recorrer a um cachorro adestrado. Após arrancar a planta com os dentes, o animal morre, e as folhas ficam servindo como narcótico ou para fins mágicos e relaxantes.

A suposta forma humana das mandrágoras alimentou a superstição de que estas crescem ao pé dos patíbulos. Browne, em texto de 1646, fala da gordura ou do inchaço dos enforcados e o romancista popular Hanns Ewers (Alraune, 1913), cita as propriedades vivificantes da semente. Mandrágora, em alemão, é “alraune”. Antigamente se dizia “alruna”, termo que dá origem à conhecida palavra “runa”.

A mandrágora (Mandragora officinarum L.), enfim, cientificamente falando, é uma planta da família das solanaceae e serve, entre outras coisas, para ser utilizada em bruxedos inomináveis. Também são atribuídas a ela as seguintes propriedades medicinais: afrodisíaca, alucinógena, analgésica e narcótica. Sabe-se que é muito antigo o uso da raiz da planta, e até algumas citações podem ser encontradas nos textos bíblicos em Gênesis 30:14 e Cantares 7:13.

Segundo lendas , as raízes da mandrágora deveriam ser colhidas em noite de lua cheia, puxadas para fora da terra por uma corda presa a um cão preto. Se outro animal ou pessoa fizesse esta tarefa, a raiz “gritaria” tão alto que o mataria. Outra lenda refere que a mandrágora tinha como semente o sêmen de um homem.

O médico Discórides identificou a mandrágora com a circea, ou erva de Circe, da qual se lê na Odisséia, no livro X: “A raiz é negra, mas a flor é branca como o leite. Dificílima empresa humana arrancá-la do solo, mas os deuses, ah, os deuses são todo-poderosos”.

Wilson Bueno – 22 de julho, 2007. Ex-tado do Paraná

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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2 respostas a Wilson Bueno

  1. Iara disse:

    Hehe, Wilson querido, nós somos psicodélicos
    “de raiz.”.. 😉

    Beijos psicodélicos
    Iara

  2. Iara disse:

    Uau! Clap, clap, clap!

    Beijos
    Iara

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