Zé da Silva

Deve ter sido a luz vermelha que coloquei do lado de fora do sobrado para aquela festa. Quem entrava achava meio estranho só encontrar em toda a casa uma geladeira velha e um fogão sem botijão de gás na cozinha – e uma cama de casal no quarto principal. Mais nada. Era assim, tempos outros. O som saía de um bom toca-fitas, a moçada se espremia pelos cômodos, dançava na sala. Rolava de tudo, principalmente alegria. Havia, contudo, alguém mais pilhado. Não parava de falar, contar histórias, planos, viajar e envolver todos ali como se fosse capaz de tecer uma teia invisível. Era do bem. Era além. De repente ele aparece escorregando do andar de cima pelo corrimão, criança que sempre foi. E ria. A velocidade preocupava porque não havia como parar – e a parede estava logo ali no fim da descida. Não se machucou. Subiu e desceu várias vezes. Quando sossegou me disse que a luz do lado de fora era demais. Então eu achei que era o motivo de tudo. Pablito Pereira. Amém.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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