Zé da Silva

Nas duas fotos me vi – sem estar lá. Mais de meio século depois de a luz sensibilizar os fotogramas. Registraram para sempre parentes próximos, mas não foi isso que olhei. Duas casas de periferia. Ruas de terra, poeira e lama – e elas! As varandas, pequenos espaços com colunas que protegiam as portas principais, as da entrada, mas sempre foram o lugar para a contemplação de um pedaço de universo que parecia protegido das maldades do mundo. Olho agora – e sinto tudo. Há plantas, flores, cachorros latindo na rua, o vendedor de doces, o afiador de facas, a bruxa ranheta, a turma unida nas aventuras dos terrenos baldios, o mato, a bola, o pião, a bolinha de gude, as figurinhas, radio-vitrola tocando, o cinema e a tela mágica, sino da igreja, poço, banho gelado, coração na garganta pela vizinha adulta e bonita, tesão pela mulher gorda. Posso apagar tudo num clique. Impossível. Sou isso – e protejo o que ganhei naqueles espaços de vida.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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