Zé da Silva

Está rindo de quê? Me perguntei no espelho. O outro eu não respondeu. Estava lá com cara de felicidade. Deixei pra lá, mas fiz uma foto para olhar de vez em sempre. Agora, por exemplo. Numa terra onde canalhas, pulhas, ladrões, bajuladores, falsos, burros que se acham inteligentes, enfim, essa corja sempre se deu bem, aquela porra de sorriso não combina com nada. Sinto tontura, estou quase cego, surdo, gordo de a dobra da barriga querer cumprimentar meu pinto inválido. Me arrancaram a próstata. Podiam arrancar tudo, pois nada funciona mesmo. Um baú cheio de pedras sou. Mala sem alça. Insuportável para quem tenta se aproximar. Não tenho mais saco pra isso. Abandonado fui por todas as mulheres. Elas tinham razão. Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. Me vejo toda hora olhando a foto no arquivo do celular. Sorriso. Mas que coisa é essa? Uia! Lembrei! Foi uma música que tinha acabado de ouvir. Ela me transportou, mas não lembro qual era. Acho que isso é mais um problema.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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