Zé da Silva

A dor era como se uma a ponta de punhal de prata estivesse enterrada ali, no quadril. Lado esquerdo. O ortopedista receitou o remédio azul. Eu tinha um branco e um rosa que tomava de vez em quando para aliviar o resultado de uma vida sedentária. Velho sou. Tomei os três de uma vez antes de ir pra cama.

Na TV em frente, uma freira era assassina. No outro canal, a vingança de uma mulher estuprada por vários homens. Não sei se desliguei, mas nunca mais esquecerei o pesadelo. Um menina novinha apareceu não sei de onde. O vestido era vermelho e cheio de flores. Quando me viu, disse apenas que eu tinha apertado um botão e estragado a vida dela para sempre. Acordei suado. Tomei um banho gelado, apesar do frio. Fiquei com aquilo martelando a mente durante dias, semanas, meses, anos.

Estraguei a vida que ela nem tinha vivido! Tentei resgatar a garotinha em outros sonhos. Por várias noites tomei aqueles comprimidos que, imaginava, tinha deflagrado a situação. Nada. Até que, certa vez, surgiu um grande botão numa parede. Não consegui chegar perto. Fiquei angustiado. Acordei – e só então notei que o punhal tinha sumido e levado a dor real.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
Esta entrada foi publicada em zé beto e marcada com a tag , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.
Compartilhe Facebook Twitter

Deixe uma resposta