Zé da Silva

O médico abriu uma avenida que começava meio palmo acima do joelho direito. Ela terminava na rótula. Não sei se tomei um “Michael Jackson” na veia, mas apaguei total antes de entrar na faca. Ao acordar, já estava no quarto do hospital. Foi aí que me mostraram as fotos feitas durante a cirurgia onde o doutor deu um nó no tendão rompido. Me achei lindo por fora, porque, por dentro… Anos depois vi a imagem do que fizeram com a cabeça do policial bandido, muito temido por ser torturador sádico. Vários tiros de calibre 12 deixaram ali, acima do pescoço, algo impossível de descrever.

Talvez, para comparar, se o alvo fosse o quengo de um polvo gigante – e tudo virasse pelo avesso. Mas isso seria forçar demais a imaginação alimentada pelo cinema, como naquela cena em que o estuprador de Mônica Bellucci, na passagem sob uma avenida, teve o crânio esmigalhado por um extintor de incêndio. Sangue, ossos, cartilagem. Guardei o retrato do pedaço de mim por dentro. Olho sempre a cicatriz, fruto de costura mal feita, por isso ficou esgarçada. Penso nisso porque me fez criar duas histórias para quem a vê e pergunta a respeito.

Se for mulher, respondo que foi na guerra do Vietnan, para onde fui a trabalho e fui presenteado com um estilhaço de bomba. Se for homem, conto a verdade. Nos dois casos, na sequência, estico o corpo e me mostro por inteiro. O envólucro da carcaça ainda está razoável. Então, rio – para provar a mim mesmo que, felizmente, a alma que já foi muito conturbada, está mais leve.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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