Eu queria ver o mar. De qualquer forma. Na semana da excursão, o corpo todo pipocou – e tudo coçava. Não pode ir, sentenciaram. Fiquei mais doente. Quero! O não estava entranhado na alma – e doía muito quando ele era futucado de fora. Talvez pelo fato de ter sido tirado à fórceps da barriga da mãe… vai saber. Fui. Desci do ônibus e saí correndo ver o espetáculo das ondas. Fiquei ali na beira, onde só a espuma suave lambia os meus pés. Olhei tanto que me veio a ideia de que aquela força que criava as ondas era como a dos meus sentimentos trancados desde que me entendi por gente. Não desconfiei que os que me levaram tinham me deixado só – e sob o sol. Tudo queimava, mas eu não sentia. Quando me dei conta não via mais os pés – e as pernas estavam enterradas até os joelhos; mas não me incomodei. De repente não havia mais ondas, mas vagalhões – e meus sentimentos não tinham nada a ver com aquilo. Fui espancado por aquela brutalidade e encoberto pela água salgada. Mas… estranho… não estava me afogando. Só não sabia o que fazer. Imóvel e quieto permaneci. Um peixinho colorido mordeu meu lábio inferior. O corpo nu não tinha mais sinais da doença. Fiquei ali. Estou aqui. Esperando a maré baixar.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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