Zé da Silva

Nem terminei de dizer ‘eu sou negão’ e os dentes superiores da frente foram parar na goela. O soco veio tão rápido que nem senti dor. O sujeito na minha frente deveria treinar todo dia um desses esportes de pancadaria. Engasguei, cuspi sangue, olhei nos olhos do bicho e eles piscavam ódio. Repeti: “Eu sou negão”. Dessa vez foi um tapa no ouvido tão forte que fiquei imediatamente surdo daquele lado.

Aí eu ri na cara dele, mostrando as gengivas onde algum pedaço de dente devia estar pendurado. “Negão”, encurtei. Ele veio para finalizar, como dizem, mas parou e olhou para o bucho. Para o bucho e minha faquinha que tinha entrado silenciosa como os passos de uma pantera negra em caçada. Nos olhos dele já não havia ódio, mas medo. A boca aberta como se não estivesse acreditando. Aquele feixe de músculos agora era um totem perto de despencar. “Negão eu sou”, disse, invertendo, para variar um pouco.

Então encostei a ponta da lâmina na carótida daquele monumento que se esvaía em sangue, fezes e urina. Espetei um pouco. Ele ainda tremeu. Furei, virei e fui embora. Ninguém me viu. Ninguém me seguiu. Em casa, tomei um banho bem quente e depois fui me olhar no espelho. Olhos verdes com tons castanhos. Pele alva com saudade do sol de praia. Disse um oi para a imagem refletida e ri – para o negão.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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