Foto sem crédito.

A morte recente do escritor e ativista curitibano Austregésilo Carrano, autor de Canto dos Malditos, livro em que foi inspirado o filme Bicho de Sete Cabeças, com Rodrigo Santoro, é – que mais não seja -, uma perda incalculável para a luta anti-manicomial no Brasil. Mesmo atingido por um câncer hepático, Carrano esperneou até o fim contra o descalabro que constitui, em grande parte, a psiquiatria brasileira.

Claro, como em tudo, há altas e honrosas exceções, mas a regra, sabemos, é ainda a de uma visão medieval do que sejam desajustes emocionais, perturbações de personalidade e outros “transtornos” da sempre complexa natureza humana. Pré-Freud, pré-Charcot, as chamadas enfermidades mentais são tratadas ainda à base de porrada, eletrochoque, contenções – físicas ou medicamentosas. Uma vergonha!

Pasmem, senhores, mas em pleno século XXI ainda se isolam em celas psicóticos de toda natureza. E coitado do neurótico eventual que caia nas garras da máfia de branco. Será logo convertido em psicótico da pior espécie. Sim, gentil leitor, da “pior espécie” porque a visão médico-psiquiátrica é moralista, canhestra, antiquada e namora com o nazismo de um Mengele sem nenhum pudor. Os exemplos são inúmeros e só não vê quem não quer.

Carrano foi internado num desses “nosocômios” aqui de Curitiba, porque pego em flagrante, aos 17 anos, fumando maconha. Daí à sedação por drogas pesadas, a contenção e o isolamento em celas individuais foi um pulo. Quando a família percebeu o desatino, já era tarde – Carrano passou dos policialescos psiquiatras para as mãos da própria polícia.

Não nos esqueçamos, senhores, de que estamos falando de 1974, na vigência plena do Horror Médici, a mais sanguinária ditadura de nossa história. É flagrante a correspondência aí entre o hospital psiquiátrico e as celas do DOI-CODI.

Asssustador é que os nosocômios continuaram praticamente os mesmos, com o agravante de que a ditadura já se foi, com seus protagonistas, para o inferno, enquanto o cenário psiquiátrico-hospitalar segue inalterável na
República das Bruzundangas.

Carrano gritou na imprensa, se acorrentou aos portões dessas prisões com fachada hospitalar, esbravejou, foi processado, e quanto mais perseguido, mais gritava, e esperneava. Não calou um só instante de sua breve vida e chegou a ser condecorado pelo Presidente da República como combatente da chamada luta
anti-manicomial.

Morreu cedo, muito cedo. O Brasil perdeu um guerreiro de estirpe. Fui seu amigo e o apoiei, desde a primeira hora, no jornal Nicolau. E agora, quem se habilita a continuar a luta? O “maluquinho” que chega a Curitiba contido por sete voltas de corda? O ignorantaço que chama o pronto socorro psiquiátrico ao flagrar o filho “tomando” maconha, que é como eles dizem?

Morreu o bicho de sete cabeças, mas morreu de pé, sem permitir que nenhuma delas fosse cortada pela nazi-psiquiatria de plantão.

Wilson Bueno (08/6/08) O Estado do Paraná.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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