Meu pai costumava dizer quando eu era adolescente: “Aproveita, filho. O dia passa devagar, mas os anos passam rápido”. A frase era brilhante, mas eu não entendia a lógica interna do raciocínio, porque ele mexia com o atemporal, o abstrato. Havia armação, uma idéia, uma sacada naquilo. Mas o que?
Hoje, a têmpora acinzentada pelas cãs do tempo, imagino que descobri o significado. Devo tudo a uma experiência mística ocorrida na minha última viagem a Israel, quando visitei a mesquita de Jerusalém.
— Feche os olhos – disse-me o mulá Ben-Moussa, um homem santo, de infinita sabedoria. Vire-se para a esquerda e depois, bem rapidamente, para a direita. O que você vê?
— Nada, mulá.
— Ok. Mantenha os olhos fechados. Sem abri-los, olhe para cima e, em seguida, com toda velocidade que conseguir, para baixo. O que aparece na sua frente?
— O mesmo, divino mestre. Néris de pitibiriba. Lhufas.
Ele então obtemperou:
— Ótimo. É isso mesmo: nada. Quem se mantém com os olhos fechados não pode aprender porra alguma com merda nenhuma.
Ele então obtemperou:
— Ótimo. É isso mesmo: nada. Quem se mantém com os olhos fechados não pode aprender porra alguma com merda nenhuma.
Dito isso, ergueu seu cajado e acertou-me uma barretada na cabeça, tão forte que me fez desmaiar. Quando despertei, senti sede e bebi da água que fluía da montanha eterna. Depois, sobreveio a fome, e alguém que eu não conhecia serviu-me uma braçada de frutas que pareciam colhidas no Jardim do Éden. Em seguida, bocejei e, como estava com bastante mau hálito, eu próprio não agüentei meu bafo e caí duro.
Por isso, nessa virada de 2008 para 2009, pensando na lição que aprendi, fiz um pedido em nome de toda a Humanidade: se é para descobrir alguma coisa, que se encontre a cura para a burrice.
Nossa capacidade de não enxergar as coisas mais simples continua inesgotável.
Almir Feijó.
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