O Paraíso, na Terra.
Neste lugar maravilhoso, da família Bruel, acampávamos desde 1974, quando não havia viva alma nas redondezas.
Nós, Beto Bruel, Enéas Lour, Beto Guiz, Kito Pereira, Nautílio Portela, Sansores França, Mário Schoemberg e mais um monte de malucos com respectivas mulheres e filhos, montávamos nossas barracas no capão onde hoje se situa a pousada Cristal do Horizonte, do Bira Bruel. Antes, passávamos por São Luiz do Purunã, onde havia um armazém típico da região, com os trabalhadores jogando sinuca e tomando cerveja e nós, ansiosos, pedíamos rabo-de-galo e a criançada se divertia com maria-mole, doces de abóbora e paçoquinhas.
Éramos jovens e passávamos semanas e semanas, chovesse ou não, tomando banho de rio, pescando, jogando conversa fora, com muita cerveja, vodka e refrigerantes. Duro era manter as crianças dentro das barracas quando chovia, todas pequenas, jogando baralho e fazendo escarcéu. Ainda não havia plantações de pinus nas redondezas e o Rio Tamanduá era maior e muito mais profundo, águas límpidas, fundo de pedras.
Naquele tempo, já éramos do MSF (Movimento dos Sem-Fazenda) e desfrutávamos o máximo das temporadas acampadas no silencioso lugar, onde o único barulho era o rio passando , a natureza se manifestando ou de algum Bruel que aparecia para visita. Tia Rita, Tia Nena, Tia Ika, Tio Clema, Tia Matilde, Sérgio Bruel, Olga e Rui (pai da Elisa, do Café do Teatro), ou Dona Dalila e o chimarrão rolava solto quando a conversa se estendia às vezes até o fim de tarde.
Tenho a maioria de nossos acampamentos em VHS e fotos e, nossos filhos, a maioria chegando ou já passando dos 30 anos, lembram de tudo que desfrutamos. Leite e pão apanhávamos no seu Saturnino, produtor da região. Sabíamos a hora quando um trem, muito distante apitava, geralmente às 5 da tarde.
Quase toda noite subíamos morro acima, de kombi, com colchões, em noites de lua cheia, para admirar a quantidade de estrelas que não conseguimos ver nas cidades, devido à poluição. E lá ficávamos deitados, esperando pelos discos-voadores que nunca apareceram.
O churrasco e a costela eram constantes e, quando a cerveja faltava, íamos nós até o km 39, buscar o líquido precioso. Enéas Lour, desastrado como sempre, era o mais divertido, embora todos compartilhassem da mesma alegria que ele demonstrava quando, ao abrir um vidro de molho de tomate, quebrava o vidro e coisas do gênero. Ele jogou meu gato fora, que nunca mais apareceu, quando, ao chegarmos para acampar, o deixamos o dentro da barraca onde Enéas dormia. Surpreendido pelo felino, acordou sobressaltado, abriu o zíper da barraca rapidamente e atirou longe nosso gatinho, que sumiu na mata para não mais voltar.
Voltarei ao assunto. Talvez contando do belo cemitério onde passávamos para chegar ao nosso destino, pela estradinha poeirenta da época.
Solda
