O leilão da Caixa Econômica estava para começar e, como adora um pastiche, ficara na platéia para ver se alguém compraria a aliança. É no que seu casamento havia terminado: uma zombaria; uma empulhação. Até torta na cara tinha rolado. Botara a aliança no prego por puro ódio, deixara o prazo do resgate vencer, agora ela estava à venda. Lembrou-se de quando o marido a colocou na sua mão esquerda: Nossa aliança é eterna. Agora, sentada naquela sala, veria ela mudar de dedo para ser fundida e virar um brinco, um pingente. Brinco? Pingente? Não. Pouco teatral. Pouco dramático. Melhor uma cruz. A aliança teria destino mais escalafobético se fosse derretida e virasse uma alegoria do sofrimento supremo. Ofereceu o dobro do lance e levou o anelzinho. Quer dizer, a futura cruz. Não queria jamais se esquecer do seu calvário nesta vida desgraçada. Em lágrimas, escolheu quem iria interpretar na sua ópera buffa particular. Não a Virgem. Não Maria Madalena. Será Jesus Cristo, o próprio.
E anjos do Paraíso cantarão os hinos mais maviosos quando, a caminho do Santo Sepulcro, percorrer as nove estações da crucificação estampadas na Via Dolorosa.
Almir Feijó.