A vida como ela é

Paulo Leminski em foto de Jack Pires.

O texto a seguir foi escrito por Toninho Vaz como apresentação do projeto acadêmico de Sônia F. da Silva, mineira ligada na vida e na obra de Paulo Leminski. Foi a partir da leitura da biografia do poeta, O Bandido que sabia latim, que a tese da estudante passou a ser engendrada, ao considerar relevante a incidência (significação) da palavra Vida no conjunto da obra poética de Leminski.
Vinte poemas de Paulo Leminski apontando para um único tema: vida. O contraponto desta tese se estabelece quando sabemos que o poeta curitibano, de trajetória tumultuada e precoce, morreu aos 44 anos – no momento que estaria, a rigor, entrando na maturidade intelectual. Não raro alguém se refere a Leminski, equivocadamente, como um “suicida”, poeta autodestrutivo, destes que se encontram apenas na poesia francesa considerada maldita, de Baudelaire e Rimbaud – emblemáticos do romantismo francês.
Boêmios sim, suicidas não.
Poeta de energia e verve, a autodestruição em Leminski, quando colocada no contexto dos anos 60 e da contracultura brasileira, passa a existir como geradora de inconformismo e estilo, nunca de apatia e morte. No máximo, estratégia. Uma estratégia cheia de vida. Ele, o poeta, aparece na condição de vítima inexorável apontando inconformado para o seu algoz, a realidade. Como neste poema da fase inicial:
a vida varia
o que valia menos
passa a valer mais
quando desvaria
ou neste outro, camuflado pela linguagem e vigor do rock´n roll:

It´s only life
But i like it

Let´s go baby
Let´s go

This life
It is not rock and roll

Contrariando as evidências, Paulo Leminski amava a vida – com os dois pés na realidade – sem nenhum demérito para a poesia que possa estar embutida na serenidade (beleza) da morte. Assim, sem desviar o olhar da realidade, o poeta foi encontrar na poesia oriental inspiração para cantar a vida, mesmo quando aparece cortejando a morte ou a eternidade:

tudo dança
hospedado numa casa
em mudança


Rio, dezembro de 2008

Toninho Vaz, autor de O Bandido que sabia latim (Record).

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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