Morre, em Londres, o jornalista e escritor Ivan Lessa

Ivan Pinheiro Themudo Lessa (São Paulo, 9 de maio de 1935, Londres, 8 de junho de 2012), mais conhecido como Ivan Lessa, jornalista e escritor brasileiro. Foto BBC – Divulgação

Retratos 3×4 de alguns amigos 6×9

Com as cravelhas do passado Ivan (Pinheiro Themudo) Lessa tenta afinar as cordas nervosas do presente. Bípede implume por decisão própria, acha egretes penas de outros pássaros. Sua raça não nega, aliás é onde se afirma. Bilíngüe em várias línguas, o inglês é o melhor português em que se exprime. Não tem fé nem esperança, mania que aprendeu em Londres. Por isso prefere começar seus weekends na segunda-feira, porque tem bem mais end. Quando fica não vai, mas sabe que é um equívoco. É desmancha prazeres, mas só pelo gosto de arrumá-los de outra forma. Gente pra ele não tem interjeição. Às vezes fica fora de si e volta decepcionado. E diz que nem só comer e coçar é questão de começar. Viver também. Extremamente atento, quando não percebe é porque não tem brilho. Ou então já não respira. Um dia foi lá mas não encontrou ninguém. E, desde então, o que mais o oprime é a certeza diária da abóbada celeste. Como o cão do provérbio, ladra e não morde, mas faz pipi em cima. Escreve pouco, lê paca, aprecia desgostos e, entre as seis e as seis e dez, tem sempre nove minutos de extrema euforia. Seu estilo é marcante, o seu rastro profundo, tem uma nuca impossível, o nariz aquilino e um pouco de miopia que o faz enxergar longe. Embora ainda não tal pai já é tal filho e Orígenes é de onde se origina.

Gosta do canoa furada, rato de hotel, adubo químico e passe de mágica. Ama o feio e bonito lhe parece. Diz o que quer e vê o que não quer. Sua fisionomia é a contragosto pois o que ele adora mesmo é antipatia. Ancorado no Leme, do alto daquela cobertura quarenta cegos o contemplam. Acha que homem serve pra se atirar caroço na cabeça do alto da sacada. E que feiura não se esconde, está na cara. Bolsa a tiracolo, dente incisivo, tem tanta fé no ser humano que costuma dizer que o lobo é o homem do lobo. Com uma mão lava a outra e com as duas bate palmas para os espectadores que saem no meio. Sólido de passo, é transparente no ato. Casado há pouco, esta morando num edifício com o nome da mulher, nessa suprema modéstia que é ser homem. Nos períodos do ano em que todo mundo faz sol ele chove a cântaros e ainda bate aquele barulhinho no telhado. Só entra em elevador que tem claustrofobia. Gosta de velho precoce, edifício sem último andar e restos de naufrágio. Às vezes sim, a maior parte das vezes porém não. Vaidoso, de vez em quando permite que um espelho se olhe nele. Mas na hora das grandes reflexões fica sozinho. Ainda muito moço já sabe bem o que quer: quando crescer vai ser um ancião. Está naquela perigosa idade entre os vinte e os noventa, quando não se dá mais mão dupla, ainda não se é senso único e já se tem que apelar para o nonsense. Mas quem olhar bem para o Ivan perceberá, no seu five o’ clock shadow, um atraso de pelo menos trinta e três minutos. Já o seu five o’ clock tea é as cinco em ponto. E sua modéstia à parte ninguém bate. Um dia me fez um elogio tão sincero que eu percebi toda a minha hipocrisia.

Cognominado e imbuído, também foi aferidor no instituto de Dois Pesos e Duas Medidas. Não fuma e não bebe a não ser quando leva o cigarro aos lábios e o copo à boca. Vive todos os dias vinte e quatro horas, crê que a esperança é a última que mata, adora terapêutica e futebol sem botão. Acha a vida um jogo e por isso não joga. Em 27 de maio de 1969 entrou pessoalmente num concurso do Kennel só para desmoralizar o arianismo dos cachorros. E outra vez foi ao Jóquei com a mesma intenção, mas os cavalos da porta não o deixaram entrar. Sempre que chega em casa toca a campainha, complexo infantil de querer ser tratado como gente de fora. Está satisfeito com a própria vida embora continue achando a música muito melhor que a letra. Feito à semelhança de Deus diz que isso é um lamentável erro do Todo Poderoso. Com o mesmo material se poderia fazer um homem muito mais confortável aqui assim nos ombros.

Nada longe, cospe em distância, pára obrigatoriamente antes de atravessar, e vai sempre reto até o final e só aí é que dobra à esquerda. Depois da Igreja, é claro. Por isso um dia caiu no pélago profundo. Mas, como ninguém viu, fingiu que não foi nada. Imita bem Groucho Marx, Hitler, Churchill, Orlando Silva e Tereza Souza Campos, mas como faz tudo ao mesmo tempo, ninguém jamais percebe. No dia em que eu nasci não pôde comparecer, mas é tão educado que me mandou um cartão, treze anos depois. Tem alguns amigos que se transviaram e, do lado de lá da calçada, começaram a assobiá-lo de outro prisma. Cético, só não funda uma religião com receio que o sigam. Primo entre si, fim de epopéia, Ivan, em suma, não acredita que o DNA seja responsável pelo palhaço que mora dentro dele.

E, autodidata, nunca ninguém lhe ensinou como viver sua existência. Vive de ouvido.

Millôr Fernandes -1923|2012

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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