Com a globalização, nasce um novo tipo de racismo, do século 21

marizaMariza Dias Costa/Editoria de Arte/Folhapress

Nos anos 1950, em Milão, havia uma pequena comunidade de chineses que viviam como vendedores ambulantes pelas ruas do centro.

“Sabíamos” que eram chineses porque 1) eram obviamente asiáticos e 2) não conseguiam pronunciar a letra “r”. Eles não vendiam “cravatte, cinque lire”, vendiam “clavate, cinque lile”. Eu pensava que essa história de não conseguir pronunciar a letra “r” fosse um traço comum a todos os orientais, chineses, japoneses, vietnamitas, mongóis, talvez até tártaros –que então deviam ser “táltalos”.

Só soube que não era assim quando, na feira do patrão de Milão (São Ambrósio), adquiri uma peça para minha coleção de relíquias da Segunda Guerra (a qual terminara sete ou oito anos antes). Era um livrinho distribuído aos soldados dos EUA que serviam no Pacífico para que conseguissem fazer a diferença entre um japonês (inimigo na guerra) e um chinês (aliado). Chamava-se “How to Spot a Jap” (como detectar um japa) e era em quadrinhos.

Soube assim que os japoneses, contrariamente aos chineses, não pronunciavam o “l” no lugar do “r”, mas o “r” no lugar do “l”. Também soube que eles eram mais baixos que a gente, mais barbudos que os chineses e (mamma mia!) tinham o dedão do pé separado por causa da tira de couro da “geta”, a sandália de madeira japonesa.

Naquela época, conhecíamos o mundo por estereótipos. Os negros africanos eram crianças sempre alegres, mesmo na hora de cozinhar e devorar a gente. Os suíços eram pontuais. Os indianos eram sanguinários como a deusa Kali. E os orientais eram traiçoeiros.

A força do estereótipo era diretamente proporcional ao nosso desconhecimento de quem eram e como eram os negros africanos, os indianos, os orientais etc. A alteridade, a distância e a ignorância alimentavam nosso racismo.

A maioria dos milaneses mal tinha cruzado com alguns negros norte-americanos durante a ocupação no fim da guerra; dos orientais, fundamentalmente, só conhecíamos os vendedores de “clavate, cinque lile”.

Eu nunca ouvira a história de ninguém que tivesse sido traído pelos chineses, os quais, aliás, foram fiéis aos Aliados contra as forças do Eixo (Japão e Alemanha), enquanto a mesma coisa não podia se dizer dos próprios italianos, que mudaram de lado bem no meio da guerra. Então, por que os chineses (e os orientais em geral), para nós, seriam “traiçoeiros”?

Encontrei uma resposta anos depois, estudando psicologia, na pesquisa de um criminologista, C. A. Feingold, o qual se perguntava por que, na hora de descrever um suspeito da raça X, as testemunhas da raça Y só conseguiam dizer que o suspeito era da raça X, sem atributos singulares que permitissem identificá-lo.

Feingold concluiu que os membros de uma raça X só conseguem diferenciar entre eles os membros de uma raça Y quando as ditas raças X e Y convivem assídua e cotidianamente. Ou seja, para os milaneses dos anos 1950, os chineses eram todos iguais entre si (e eram também iguais aos japoneses).

A seguir, outros pesquisadores mostraram que, sem a tal convivência assídua e cotidiana, o membro da raça X não consegue sequer interpretar as expressões básicas dos membros da raça Y. Portanto, a raça com a qual eu convivo pouco me parece sempre traiçoeira, porque não sei decifrar o outro dessa raça, não sei entender se ele está querendo me dar uma bala ou uma facada.

Pergunta em aberto: não reconhecemos os afetos dos membros de outra raça porque somos racistas (e recusamos qualquer empatia com eles)? Ou somos racistas como consequência do fato de que eles nos apavoram porque não sabemos ler seus rostos? Ou um pouco dos dois?

Seja como for, a globalização nos levou a conviver assídua e cotidianamente com o diferente. Com isso, o racismo não acabou, mas ele mudou substancialmente.

Passamos do racismo da alteridade –em que desconfiávamos do distante, diferente, exótico, misterioso e, de fato, desconhecido– ao racismo da convivência, da proximidade, da familiaridade “excessiva”. No século 21, não odiamos os que estão longe demais, quase invisíveis, mas os que estão perto demais, já entre nós.

A questão não é mais “quem são vocês lá, no horizonte?”, mas “o que vocês estão fazendo aqui, na nossa casa, nos nossos sonhos, nos nossos desejos?”. Essas reflexões nasceram assistindo a “Chocolate”, de Roschdy Zem, com o extraordinário Omar Sy. Não perca.

contardo-calligaris

Contardo  Calligaris – Folha de São Paulo

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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