Valha-nos, Deus!

Estou convencido de que o Brasil ainda está de pé porque Deus é brasileiro. E tem atuado nos bastidores. Caso contrário, já éramos. País algum aguentaria o que o nosso tem aguentado nos últimos tempos. No comando, tem um insano irresponsável, língua solta para dizer bobagens, cercado de milicos e um sonho irrealizável na cabeça oca: plantar aqui uma república fascista sob o seu controle e o de seus asseclas fardados.

No Ministério, encontra-se a pior tropa que se podia reunir, em toda a história da República, com provavelmente uma exceção – a ministra Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias, deputada e pecuarista, que, a despeito de ser do ramo do agronegócio, parece saber o que está fazendo e é a única a apresentar resultados satisfatórios. No mais, é aquela tragédia.

Ia começar pelo atual titular da Justiça, que teve a honra de ocupar a cadeira de Sérgio Moro, mas o panorama nacional encaminha-me para a Saúde. Na atual temporada do coronavírus, quatro foram os titulares da pasta. No momento, dita ordens, ainda que em caráter provisório, Eduardo Pazuello, general da ativa, abarrotado de condecorações, mas sem nenhuma intimidade com a saúde pública. Assim que assumiu, recebeu um parecer dos técnicos do ministério sugerindo o afastamento social da população, o uso constante de máscara e a higienização pessoal. Fez o contrário, liberando a abertura do comércio, dos shoppings e até de academias de ginástica, atendendo à vontade do patrão. O vírus agradeceu e as estatísticas subiram. Agora, descobriu-se que utilizou somente 11% da verba destinada ao ministério para suprir as necessidades de equipamento e remédios das unidades de saúde. Resultado: tem UPAs fechando por falta de condições de trabalho e hospitais amargando a falta de medicamentos… Quer dizer: o general está a merecer uma nova medalha. Talvez duas, depois de haver afirmado não saber o que foi o AI-5…

Na Justiça, com todo o respeito, há um boneco de ventríloquo como titular. Feição mirrada de bebê chorão, tem uma interpretação pessoal da lei e da Constituição Federal, variando de acordo com o interesse do Planalto. Quando um bando de aloprados atirou rojões contra o Supremo Tribunal Federal, invocou em favor dos criminosos a liberdade de expressão garantida constitucionalmente. No entanto, quando o jornalista Hélio Schwartsman, da Folha, disse torcer para que Bolsonaro morra de Covid 19, pediu a abertura de inquérito contra o articulista, com base na Lei de Segurança Nacional. É uma tosca figura, que arrisca integrar brevemente o STF.

Na Educação – hoje mais uma lembrança do passado de um órgão que se destinava a cuidar do ensino no Brasil –, depois de três experiências fracassadas, acaba de assumir um pastor evangélico com nome de ator de cinema (que viveu na tela o cangaceiro Capitão Galdino, inspirado em Lampião), Milton Ribeiro. Assumiu e já entrou em licença para tratamento de saúde. O que fará, ainda ninguém sabe. Sabe-se, contudo, que é contra a união homoafetiva.

Aí, tem os ministérios das Relações Exteriores, da Cidadania, do Meio-Ambiente e da Mulher, Família e Direitos Humanos. Mas quando me vêm à mente as figuras de Ernesto Araújo, Onyx Lorenzoni, Ricardo Salles e Damares Alves, cada um deles um capítulo à parte, sinto um desânimo brutal e uma vontade quase insuportável de chorar.

Quem me salvou foi o bom amigo e valoroso soldado Edson Dallagassa, alojado ali na beirada de Curitiba, entrada da vizinha Colombo, que acaba de chegar via e-mail. Mandou um interessante episódio, precedido da velha afirmação “Quando se pensa que viu tudo…”:

“Em Aquiraz, pertinho de Fortaleza, Ceará, Tacilita Bernarda começou a construir um anexo em seu cabaré; e a igreja Neopentecostal fez forte campanha contra a construção, com orações contínuas.

“Uma semana antes da inauguração, um raio incendiou o cabaré. Tacilita processou a igreja e o pastor, responsabilizando-os pela ‘intervenção divina’ que destruiu a obra. A igreja alegou que não houve prova da intervenção divina a partir das orações.

“Comentário do juiz na audiência de abertura: ‘Pelo que li até agora, temos de um lado uma proprietária de um prostíbulo que acredita firmemente no poder das orações e do outro lado uma igreja inteira que afirma que as orações não valem nada…’”.

Oh, Deus todo poderoso! Por que não envia um raio sobre o Palácio do Planalto e outro sobre a Explanada dos Ministérios? O Brasil agradeceria.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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