Nazismo volta a assombrar o mundo e os brasileiros

Ana Luíza Nardin

Inadmissivelmente, tal respaldo legal parece não ser suficiente, pois o movimento neonazista vem ganhando força e, assustadoramente, ocupando espaços políticos e nas mídias. Lamentavelmente, pesquisas revelam que nos dias atuais existem 530 grupos neonazistas espalhados por todas as regiões do país

Em tempos tão difíceis de Covid-19, ainda temos de lidar com pessoas que aderiram e reproduzem amplamente o discurso nazista, da supremacia branca, revelando-se fiéis adoradores do horrível Adolf Hitler, fator perigoso que vem se fortalecendo nesse cenário de guerra entre Ucrânia e Rússia. Dessa forma, precisamos entender historicamente como a ideologia nazista nasceu e vem crescendo, sobretudo em nosso país.

Historicamente, o nazismo foi o funesto movimento de extrema direita que surgiu na Alemanha, logo após a Primeira Guerra Mundial, associado ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Em 1933, o abominável Adolf Hitler tornou-se chanceler e, por meio dele, o pensamento nazista e totalitário se solidificou. Intratavelmente, esse movimento expandiu-se interna e externamente, atingindo 83 países do mundo, em adaptação rápida e expressiva.

Pesquisas revelam inclusive que o crescimento do movimento nazista mundialmente se deu de acordo com o aumento do número de alemães presentes em outros países. Logo, os lugares que haviam recebido as maiores levas de imigrantes alemães tinham as cifras mais significativas. Na América do Sul, por exemplo, a presença foi expressiva e marcante em quase todos os países, dentre eles destacam-se Brasil, Argentina e Chile. Curiosamente, em nosso país o partido nazista se faz presente com maior intensidade nas regiões Sudeste e Sul, fato que pode ser explicado graças à grande colonização alemã nessas áreas desde o século 19.

Além disso, foi na primeira fase do governo Getúlio Vargas, entre 1930 e 1937, que o nazismo teve maior circulação, encontrando clima propício a sua organização como partido, apoiado por múltiplas organizações estatais, entre elas culturais, diplomáticas, industriais, educacionais e financeiras. Entretanto, tal movimento se enfraqueceu entre 1938 e 1942, mais especificamente quando entramos na Segunda Guerra Mundial ao lado dos norte-americanos. Contudo, essa ideologia nefasta nunca foi extinta por completo.

 Por outro lado, somente em 1994, por meio de projeto do deputado Alberto Goldman (PSDB-SP), a apologia ao nazismo foi considerada crime, respaldada pela Lei 7.716/1989. Tal proposta de lei se expandiu em 1997, com o deputado Paulo Paim (PT-RS). Em outras palavras, a partir dessa legislação, é considerado crime praticar, induzir e incitar a discriminação ou o preconceito de raça, cor, etnia e religião, sendo que tal infração pode resultar em pena três anos de detenção e multa.

Inadmissivelmente, tal respaldo legal parece não ser suficiente, pois o movimento neonazista vem ganhando força e, assustadoramente, ocupando espaços políticos e nas mídias. Lamentavelmente, pesquisas revelam que nos dias atuais existem 530 grupos neonazistas espalhados por todas as regiões do país. Inclusive, passa a ser importante destacar que a militante Sara Geromini, fiel apoiadora do presidente Jair Bolsonaro, passou a usar o sobrenome “Winter” para homenagear Sarah Winter, inglesa que se tornou espiã nazista e integrante da União Britânica de Fascistas.

Além disso, cabe aqui também mencionarmos o caso tenebroso do youtuber Bruno Aiub, conhecido como Monark, que partiu em defesa da existência de um partido nazista no Brasil. Logo em seguida a esse episódio horripilante, tivemos a demissão do comentarista Adrilles Jorge, da TV Jovem Pan News, que encerrou sua participação no programa, que abordava o episódio de Monark, fazendo uma saudação nazista. O caso também viralizou na internet, e a emissora decidiu demitir corretamente o comentarista, o mesmo acontecendo com o youtuber.

Muito por causa disso, gostaria de reforçar que a ideologia nazista, além de crime, foi a grande responsável pelo extermínio de milhões de judeus durante o Holocausto. Além deles, outras minorias, como ciganos, mulheres, homossexuais e negros foram perseguidos e aprisionados em campos de concentração demasiadamente desumanos.

O trágico contexto histórico do passado e da atualidade fez com que eu me lembrasse da obra Origens do totalitarismo, escrito por Hannah Arendt em 1951, na qual a autora pontua que uma das características fundamentais e predominantes do governo nazista foi a instituição de campos de concentração, nos quais ocorreram a degradação total da identidade humana. Os horrores cometidos nos campos de concentração estendiam-se a jornadas de trabalho extenuantes, maus tratos diários, péssimas condições de higiene, torturas psicológicas e execuções sumárias. Logo, os campos de concentração eram locais de extermínio do ser humano, nos quais o horror e a crueldade se faziam presentes a todo momento.

Por fim, acredito que este é um momento propício para repensarmos sobre as inúmeras tragédias e ideologias do passado, sobretudo o nazismo e o fascismo, que crescem assombrosamente no mundo e no Brasil, no intuito de refrear e punir com rigor tal atrocidade, para tentarmos assim fazer uma história diferente, como sonhava Anne Frank.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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