Velhos não são descartáveis!

A violência física, verbal e psicológica mora dentro das nossas casas

15 de junho é o Dia Mundial de Conscientização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2011, com o propósito de denunciar as violações dos direitos dos idosos.

Desde muito jovem sou uma militante na luta contra a violência que os mais velhos sofrem dentro das próprias casas. Um dos momentos mais importantes e emocionantes da minha vida foi participar do debate sobre etarismo no Brasil na audiência pública da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa no Congresso Nacional, no dia 17 de maio de 2023.

Comecei contando que sou antropóloga, professora e escritora, que já escrevi 30 livros e pesquiso a questão do envelhecimento e felicidade há quase três décadas. Disse que iria falar não como uma especialista, mas como uma militante contra o etarismo, a velhofobia, o idadismo, o ageísmo, o nome que cada um escolher.

A violência física, verbal, psicológica, o abuso financeiro, a negligência, os maus-tratos, os xingamentos e as “brincadeirinhas” que humilham e ofendem os mais velhos moram nas nossas casas. Mais de 50% da violência contra os velhos é praticada pelos próprios filhos e filhas, e mais de 10% pelos netos, netas, genros, noras e cônjuges. Não preciso citar o aumento das denúncias de violência registrado no Disque 100 porque esse número não retrata a triste realidade. A maior parte dos velhos tem medo e vergonha de denunciar a violência que sofrem dos próprios filhos e filhas.

A pandemia escancarou a velhofobia que sempre existiu no Brasil. Nós escutamos das autoridades de então que os velhos estavam atrapalhando a economia, que o grande problema do Brasil era que os velhos queriam viver até os 100 anos, que seria até bom para a Previdência se os velhos morressem logo.

Filhos, filhas, netos e netas, muitas vezes com a intenção de superproteger os mais velhos, desrespeitam o bem mais valioso que eles querem preservar: a autonomia. Para eles, a falta de autonomia é uma espécie de morte simbólica.

Desde março de 2015 eu digo que tenho 93 anos porque, desde então, só tenho amigos de mais de 90 anos. Sou chamada pelos meus amigos nonagenários de “escutadora dos velhinhos”. E o que eles me contam?

“Não tenho com quem conversar, todos os meus amigos já morreram, sou o último dos moicanos. Ninguém me escuta, ninguém tem interesse pelas minhas histórias. Me tratam como uma criança inválida, só me dão ordens: ‘toma o remédio, não pode sair sozinho de casa, não pode falar com qualquer um’. Quero continuar sendo ativo, útil, produtivo, independente, continuar fazendo as coisas que eu sempre fiz e ainda posso fazer”.

Eu repito como um mantra: o jovem de hoje é o velho de amanhã. Escute os mais velhos como você quer ser escutado amanhã. Respeite a autonomia dos mais velhos como você quer ser respeitado amanhã. Diga todos os dias para os mais velhos: “Eu te amo, muito obrigado por cuidar de mim, você é muito importante para mim. Você não é descartável, você não é inútil, você não é invisível”.

Quando eu me sinto só uma formiguinha na luta contra a violência que existe dentro das nossas casas, quando eu fico deprimida e penso em desistir, meus melhores amigos —Thaís, de 97 anos, e Guedes, de 98 anos— me dizem: “Tem que ter coragem, Mirian, coragem. Você vai sim”.

Inspirada em Martin Luther King, terminei a minha fala no Congresso Nacional, com lágrimas nos olhos, dizendo que eu tenho um sonho. Eu tenho um sonho de que um dia o velho será considerado lindo e que iremos viver em uma nação em que as pessoas não serão julgadas pelas rugas da sua pele, e sim pela beleza do seu caráter. Livres, somos livres enfim.

Minha primeira coluna para a Folha de S.Paulo, “O marido como capital”, de 1º de junho de 2010, já abordava a questão do envelhecimento e da felicidade. São mais de 13 anos escrevendo aqui sobre as dores e delícias de envelhecer no Brasil. Será que o meu trabalho de formiguinha conseguiu transformar o olhar dos meus leitores e leitoras sobre o próprio envelhecimento?

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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