E se Daniel Alves e Robinho fossem seus amigos?

Precisamos entender como combater os alicerces que mantêm a roda da impunidade girando.

Só essa frase já me fez perceber que recorremos a um erro bem comum que é nos colocarmos como bússola moral da sociedade, achar que o que pensamos e fazemos está acima dos outros apenas porque é o jeito que nos vemos e acreditamos que todos devem se comportar.

Claro que é perturbador constatar que uma mulher opta por manter um casamento com um homem condenado por estupro, como no caso do jogador Robinho e agora de Daniel Alves, que foi para casa e tinha a mulher a sua espera. Ou se casar, por livre espontânea vontade, com alguém nas mesmas condições, como aconteceu com o médico Roger Abdelmassih, acusado de dezenas de crimes sexuais. Assim como o sentimento é de indignação ao saber da suposta oferta que teria sido feita pelo pai de Neymar de pagar a fiança, como foi noticiado (e negado), de Daniel Alves, garantiria sua liberdade até que os recursos da defesa sejam todos julgados.

Dar às costas a criminosos parece a decisão mais natural para qualquer um que preza pela ética e pela moral, mas o fato é que amigos permanecem fiéis a assassinos, ladrões, pedófilos, estupradores. Pais não abandonam filhos presos por crimes hediondos. Familiares acreditam na inocência de parentes mesmo quando há provas robustas que mostram o contrário. “Mães que denunciam filhos à polícia, em geral, não o fazem por ódio, mas por impotência”, diz Krause.

O silêncio e o apoio são sempre lidos como conivência e sinal de (falta de) caráter. Talvez seja um pouco de tudo ou nada disso. Krause acredita é que diante da possibilidade de tirar um amigo, filho, pai, irmão da cadeia, a grande maioria das pessoas o faria e faz. E relativiza o crime, seja ele qual for. “Não se trata de justiça, valores morais elevados, atinência aos princípios éticos mais elementares, é uma questão de afeto e comportamento gregário de proteção ao bando ao qual eu pertenço e no qual me sinto incluído.”

Ele explica que, amigos, e quanto mais próximos forem, fazem parte de uma família eleita, não consanguínea, mas considerada como tal. São eles que vão nos proteger, acolher, defender e lutar conosco contra os inimigos que porventura venham nos atacar. “É perfeitamente natural que favoreçamos e ajudemos quem está conosco. Existe o velho ditado, de índole pra lá de duvidosa, mas indiscutível em termos de como as coisas acontecem no mundo real: “Aos amigos tudo, aos inimigos o rigor da lei”.

Apontar misoginia e reclamar do patriarcado talvez resolvam em parte as nossas dores e confortem nossos sentimentos de impotência, injustiça e indignação, quando vemos tantos casos de violência contra mulher serem resolvidos por meio de privilégios, corporativismo e Pix. Mas precisamos entender como combater os alicerces que mantêm a roda da impunidade girando, o que envolve nossos valores como sociedade que ampara os crimes relacionados ao machismo, além dos valores fixados pelo judiciário para aqueles que deveriam ser inafiançáveis, aqui ou em qualquer lugar do mundo.

Enquanto isso não acontece, parece que nos resta escolher melhor as amizades e até os parentes a ter esse tipo de dilema ético e moral para enfrentar. Como me disse Krause, “a vida não é justa”.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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