Reflexões à beira do abismo

Khlestakov, sozinho no quarto, aproveita para refletir. Afinal de contas, é nas horas difíceis que um homem deve ter força moral para avaliar a sua situação e crescer interiormente. “Mas que fome desgraçada!” Ele havia dado um passeio para ver se a monotonia da cidade e a visão do lixo nas ruas lhe tirariam o apetite. Mas não havia jeito. Se não fosse aquela maldita farra, teria dinheiro ao menos para voltar para casa.

“Onde é que errei, meu Deus.” E continuava a fazer sua corajosa autocrítica. Aquele capitão de infantaria tinha um estranho poder: era capaz de fazer o milagre da multiplicação dos ases. E ainda riu como um bárbaro, um verdadeiro animal, quando, em menos de 15 minutos, arrancou o couro de Khlestakov, praticamente o deixando pelado na sarjeta. Mesmo assim, o rapaz estava ávido por voltar a jogar com ele. Por azar, havia acabado justamente em Babuska. Uma cidadezinha chata, de gente que não quer vender fiado, um bando de canalhas que economiza até o tempo em que poderia ter alguma conversa interessante.

— É isso mesmo! Descobri! O meu grande defeito, o meu maior erro é ser um grande, um tremendo de um azarado.

(Trecho de O inspetor geral, de Nicolai Gógol, versão de Roberto Prado, editora FTD, SP

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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