A lei do retorno

Com toda a certeza, as passeatas de sábado passado e as 500 mil mortes pela Covid-19, atingiram Bolsonaro no… estômago. Eu ia dizer no cérebro, mas aí me lembrei que cérebro ele não tem. Estão, fica sendo estômago. A verdade é que ele, de sábado para cá, está, mais do que nunca, uma “pilha de nervos”. Para quem não sabe, pilha de nervos é uma expressão do meu tempo que significava (e ainda significa) pessoa extremamente nervosa, descontrolada, e agressiva a ponto de explodir de raiva.

Foi o que aconteceu com s. exª. na segunda-feira, em Guaratinguetá, SP, quando uma repórter da TV Vanguarda, afilhada da Globo, ousou perguntar-lhe porque chegara ao evento sem máscara. Irritado, ele arrancou a máscara que então usava e proclamou: “Eu chego como quiser, onde eu quiser, eu cuido da minha vida”. Em seguida, mandou todo mundo, inclusive gente do seu estafe, calar a boca. Esclareça-se que o evento que levou o capitão-presidente ao território paulista foi a formatura de novos sargentos da Aeronáutica, porque em qualquer ocorrência que envolva farda ele bate continência.

E aproveitou para atacar a Globo. “Vocês acham que vou me consultar com o Bonner ou com a Miriam Leitão sobre esse assunto? – perguntou, enquanto tirava a máscara. E desafiou: “Me botem no Jornal Nacional agora. Vai botar agora? Estou sem máscara em Guaratinguetá. Está feliz agora? Você está feliz agora?”. E foi em frente: “Essa Globo é uma merda de imprensa. Vocês são uma porcaria de imprensa. Cala a boca, vocês são uns canalhas. Vocês fazem um jornalismo canalha, canalha, que não ajuda nada. Vocês não ajudam nada. Vocês destroem a família brasileira, destroem a religião brasileira. Vocês não prestam”.

Ato contínuo, Bolsonaro investiu contra a repórter da CNN, um veículo tido como bolsonarista: “Vocês elogiaram a passeata agora de domingo [foi sábado, exª.], né? Jogaram fogos de artifício em vocês e vocês elogiaram ainda”. Estava visivelmente alterado.

A resposta da Globo foi a óbvia: “Não será com gritos nem intolerância que o presidente impedirá que inibirá o trabalho da imprensa no Brasil. Esta, ao contrário dele, seguirá cumprindo o seu papel com serenidade”.

Em nome da CNN, a jornalista Daniela Lima repudiou a escalada de s. exª. contra a imprensa e reafirmou que ele segue insistindo em dados falsos. Referia-se, por certo, à defesa do “tratamento precoce” contra o coronavírus, através de medicamentos sem comprovação científica.

A verdade é que o desgaste de Jair Messias é galopante com queda continuada de popularidade. Levantamentos do Ibope e do Datafolha indicam que o atual inquilino do Palácio do Planalto tem apenas 23% das intenções de voto no primeiro turno de 2022, contra 41% do ex-presidente Lula. Em um eventual segundo turno, Lula venceria por 55% a 32%.

O cerco a Bolsonaro chega de todos os lados: na rua, o povo pede o seu impeachment; a CPI da Covid aproxima-se do Palácio do Planalto; o TSE quer provas da alegada (pelo capitão) fraude no sistema eletrônico de votação nas eleições de 2018; a economia nacional afunda, o desemprego triplica e a inflação está de volta; a “gripezinha” “matou meio milhão” de pessoas e continua crescendo; a aquisição e distribuição da vacina, além de tardia, permanece desordenada; a imprensa internacional chama o nosso presidente de “genocida” e lá fora ninguém mais o respeita, nem o guru Olavo de Carvalho. E agora acaba de ser anunciado um esquema de corrupção pesado na aquisição das vacinas dentro do Ministério da Saúde! – ao que parece, com o conhecimento de s. exª. …  Não há “motorreata” de zumbis que resolva.

Se fosse realmente um crente, temente a Deus, Jair Messias Bolsonaro teria aprendido com os seus pastores que há um salmo no livro sagrado que diz algo em torno de “aqui se faz, aqui se paga”.

Confere lá, excelência.

P.S. I – Ao contrário do que pregam os maledicentes mal intencionados, não foi a Lava-Jato que elegeu Bolsonaro. Foram as estrepolias (estrepolias é uma homenagem ao Silvestre. Devia dizer delitos) de Lula e de seus discípulos. Agora, no pleito de 2022, o capitão está fazendo tudo para eleger Lula. E aí também se aplica a lei do retorno. Pobre Brasil!

P.S. II – Sai Ricardo Salles e entra Joaquim Álvaro Pereira, que durante 23 anos foi conselheiro da Sociedade Rural Brasileira (SRB). Haja desmatamento!

P.S. III – Do voto do ministro Marco Aurélio de Mello, decano do STF: “O juiz Sérgio Moro surgiu como verdadeiro herói nacional e então, do dia para a noite, ou melhor, passado algum tempo, é tomado como suspeito. E daí caminha-se para dar-se o dito pelo não dito, em retroação incompatível com os interesses maiores do Brasil”.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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