A ordem germânica

Rogério Distéfano – O Insulto Diário

A MULHER SEMPRE cobrava, “precisa organizar os livros”, que já ocupavam três salas, derramando-se sobre mesas, cadeiras, até no sofá cambaio, manchado e furado, com a manta cobrindo os estragos. Se você é homem e leitor sabe que essa ordem nunca é respeitada, mesmo vinda de quem você de regra obedece sem pestanejar nem discutir. Como é mesmo a história? Ah, sim, ‘se você reconhece o erro estando errado, é um sábio; se você reconhece o erro estando certo, é casado”.

Ele fazia de tudo para não fazer nada, não era um Rui Barbosa que lá do ministério da Fazenda mandava o funcionário buscar o livro em casa, exato no lugar indicado do terceiro nível da biblioteca de quarenta mil volumes – estava tudo catalogado, no papel e no olho da Águia de Haia. A biblioteca de nosso personagem nem esse nome merecia, era um amontoado de livros díspares, mas ele sabia exatamente onde encontrar o que precisava, ainda que soterrado e empoeirado por anos seguidos.

Escapava da mulher dizendo que precisava encontrar alguém técnico, bibliotecário ou bibliotecária, pessoa letrada na organização das letras. Um dia a mulher perdeu a paciência, aproveitou a pescaria de uma semana no Pantanal e chamou a mocinha, que encontrou no Google, para dar jeito naquela barafunda. Moça treinada na Alemanha, segundo a mulher. Funcionou. Na volta encontrou tudo arrumadinho, os livros selecionados aos grupos com fitinhas de cores diferentes.

Requintada, a organizadora deixou-lhe a relação e localização dos livros em arquivo no computador. Quatro anos passados, ele continua perdido nas três salas, olha para os livros com as fitinhas, agora na maioria misturadas na tentativa de voltar à barafunda de antes. Não brigou com a mulher, não é louco, quando descobriu o que a moça aprendeu na Alemanha. Biblioteconomia? Não, coisa melhor, mais útil: a organização de gavetas, assim tipo lençóis, camisas, cuecas, meias. 

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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