Documentário sobre Keith Richards sofre com clichês e elogios

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A Netflix estreou “Keith Richards: Under the Influence”, um documentário sobre o mitológico guitarrista dos Rolling Stones. Infelizmente, o filme é o exato oposto de Richards: bem comportado, bonzinho e sem polêmicas.

Dirigido por Morgan Neville, vencedor do Oscar de melhor documentário pelo piegas “A Um Passo do Estrelato” (2013), o longa é uma elogia a Richards e à mitologia que o cerca, sem preocupação em explorar ideias, idiossincrasias e pensamentos do guitarrista. O filme acaba e não sabemos quem é, de verdade, o sujeito por trás do mito.

O que não quer dizer que fãs dos Stones não vão se divertir. Há cenas de arquivo memoráveis, e algumas sequências interessantes que retratam bastidores da vida dos Stones, como o técnico de guitarra de Richards mostrando os instrumentos mais raros da coleção do artista.

É bonito –embora batido– ver Richards falando da infância, numa Inglaterra cinza e triste, ainda em escombros da Segunda Guerra, e de ser “salvo” pelo blues de Muddy Waters, a country music de Hank Williams e o rock’n’roll de Chuck Berry e Elvis Presley

“Quando ouvi Elvis cantando ‘Baby Let’s Play House’, o mundo subitamente passou de preto e branco a Tecnicolor”, diz Richards.

Em outra passagem marcante, Richards vai a Chicago, à sede da gravadora Chess (onde se espantou, nos anos 60, ao ver Muddy Waters pintando as paredes do prédio) e encontra o bluesman Buddy Guy, que fala da importância dos Stones para a popularização do blues no mundo.

Guy conta que chorou ao saber que os Stones exigiram, num programa de TV nos anos 60, a presença do bluesman Howlin’ Wolf. “Foi a primeira vez que vi Wolf na TV. E foi tudo culpa desses caras”, diz, apontando para Richards.

O documentário é, basicamente, uma longa propaganda do novo disco solo de Richards, “Crosseyed Heart”, e ele aparece tocando várias músicas do LP. Também fala de amigos que se foram (Gram Parsons, Muddy Waters) e dos gêneros musicais que o marcaram, como country e reggae.

Que Neville tenha feito um filme inteiro sobre Keith Richards –astro que personifica a rebeldia associada ao rock –sem mencionar sexo, drogas e as polêmicas que ele protagonizou nos últimos 52 anos, é um assombro. Em vez disso, temos um festival de frases feitas que fãs já ouviram de Richards, como “Você só vira adulto quando está morto e enterrado”. Nada menos rock’n’roll que isso.

KEITH RICHARDS – UNDER THE INFLUENCE -DIREÇÃO Morgan Neville- PRODUÇÃO EUA, 2015 – NETFLIX

Folha de São Paulo

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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