O escritor Khaled Hosseini conta no livro O caçador de pipas que um professor de redação literária sempre alertava quanto ao uso de clichês, as frases prontas e embaladas para fácil digestão. “Tratem de evitá-los como se evita uma praga.” O professor ria da própria piada, a turma ria junto, mas o escritor nascido no Afeganistão sempre achou que aquilo era uma tremenda injustiça: “Porque, muitas vezes, eles (os clichês) são de uma precisão impressionante”.
“Diz-me com quem andas e eu te direi quem és” – este é um desses clichês que precisam ser evitados como uma praga, e no entanto muitas vezes de uma precisão absoluta. Muitas vezes. Certa vez o jornalista Manoel Carlos Karam foi visto saindo de um teatro ao lado da Virna Lisi, em Paris, e nem por isso os tablóides sensacionalistas da Europa noticiaram que a atriz estava apaixonada por um escritor da América Latina. Para fortuna de Karam, bem que naquela oportunidade o velho clichê podia ter sido de uma precisão impressionante.
Para usar dois outros clichês numa mesama frase, muitas vezes as aparências enganam e assim é se lhe parece. Entretanto, não é difícil conceder às evidências que cada um tem a sua turma e diz-me quem faz parte da tua turma que eu te direi quem és.
Assim sendo, assim identificamos quem é quem na cena política brasileira, quem votou em quem na eleição da mesa da Câmara nesta quinta-feira passada. O mapa das urnas apenas confirmou que não temos partidos políticos, temos políticos com suas respectivas turmas que se revezam no poder. Em muitos casos, não são turmas, são bandos. Somados aos líderes carismáticos especializados na formação de quadrilhas institucionalizadas.
No seu Dicionário amoroso da América Latina, o escritor Mario Vargas Llosa lembra dos discursos de André Malraux, “o único grande escritor que conheço que falava tão bem quanto escrevia”, sobretudo de um pronunciamento numa campanha eleitoral que abria com esta incômoda verdade:
“Que época estranha, dirão da nossa os escritores do futuro. Em que a direita não era direita, a esquerda não era esquerda, e o centro não estava no meio”. Os escritores do futuro, aos quais se referia André Malraux, são as testemunhas do populismo na América Latina que, aqui e ali, costura “avesso do futuro”.
A turma da esquerda não se mantém à esquerda, a turma da direita não conserva a direita e a turma do centro nunca se encontra no meio. Nossos parâmetros políticos são estabelecidos pelo espírito de turma, conforme os interesses das hierarquias municipais, estaduais e federais.
Em Brasília – onde, segundo Fernando Gabeira, “se você sair à noite, terá de ir a lugares onde só tem lobistas, putas e deputados”, os novatos que agora tomaram posse na Câmara Federal não devem ter encontrado dificuldades para reconhecer as turmas de lobistas, putas e deputados: “Diz-me quem és e eu te direi quem é a tua turma”.
Entre parlamentares, encontramos a turma do Zé Dirceu, a turma do Zé Serra, a turma do Aecinho, a turma da Luciana Genro, a turma dos aloprados, a turma dos dólares na cueca, a turma do mensalão, a turma do dízimo, e temos a turma gay do Clodovil, que disse presente na posse dos eleitos com uma caravana de 50 ônibus. Escolha a sua turma: Delfim Neto, ícone da direita, optou pela turma do Lula. Roberto Freire, comunista de carteirinha vencida, se inscreveu na turma do Red Label de Jorge Bornhausen.
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Muito além da disputa pela presidência da Câmara, o deputado Gustavo Fruet adquiriu o direito de formar a própria turma. A turma do Guga nasce grande, com um belo futuro e um honrado passado, herança de família, quando as turmas se dividiam apenas em mocinhos e bandidos, com tudo muito claro: de um lado, a turma do Maurício Fruet, com sede na Rua Chile; no lado oposto, a turma da ditadura.Dante Mendonça [02/02/2007]O Estado do Paraná
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