O repórter e o ator Paulo José no início da carreira de
ambos, em 1970. Fotógrafo não identificado.
Novo trecho do livro em processo do jornalista Toninho Vaz, Do rádio galena à website, categoria Memórias. Em edições anteriores apresentamos dois (2) trechos do Capítulo 1 – Como um realejo. Hoje voltamos para o inicio do mesmo capítulo, a primeira parte, que a rigor deveria ter sido postada antes. É quando o nosso herói conhece uma redação de jornal, a caverna, seu futuro habitat.
A primeira vez que entrei numa redação de jornal, com a intenção de permanecer íntimo, foi num dia qualquer de novembro ou dezembro de 1969. A oportunidade havia surgido com a debandada dos integrantes do Grupo Áporo da cidade e, como conseqüência, também das páginas do suplemento cultural do Diário do Paraná, conhecido como DP Domingo. O Áporo reunia um punhado de jovens intelectuais envolvidos com arte e literatura que traziam a marca da rebeldia estampada nos cabelos compridos e roupas extravagantes. O principal nome do grupo, o poeta Paulo Leminski, embora estivesse sempre presente nas páginas com textos e ensaios, não tinha uma coluna ou espaço fixo no jornal, mas Ivan da Costa, Lélio Sotomaior e Carlos João escreviam com regularidade sobre música, cinema e MPB, respectivamente.
Eram todos colaboradores não remunerados que o editor Aroldo Murá estimulava numa relação quase afetiva com seus, digamos, estagiários. Eles não planejavam ser jornalistas (ainda uma atividade parnasiana exercida por advogados em “compotas”), mas reconhecidos como uma geração de “novos intelectuais”, comprometidos com os códigos de modernidade e liberdade de criação. Na vitrola do apartamento do edifício São Bernardo, no centro de Curitiba, onde eles se reuniam, tocava sem parar John Cage e Caetano Veloso – este transformado em grande sucesso desde a explosão tropicalista dos festivais da Record, dois anos antes. Era a geração 68. Desnecessário dizer que o meu encontro com estes (talentosos) rapazes seria determinante para o que iria acontecer na minha vida deste ponto em diante. Em pouco tempo, como todos os outros, eu sonhava “conhecer” melhor o mundo, contaminado que estava pelo vírus da literatura e da cultura pop.
Durante quase dois anos me dediquei a escrever uma coluna semanal que deveria, por determinação do editor, ser ocupada com resenhas e informações (agendas) dos filmes em cartaz durante a semana. Ainda tenho viva na memória – anexada a um resquício de frustração e desconforto – a lembrança de que os três primeiros trabalhos publicados foram virtualmente chupados dos press releases produzidos e enviados às redações pelas empresas cinematográficas. Eu promovia mudanças mínimas no texto, que o meu pudor – uma mistura de bom senso e vergonha na cara – tratava de adequar para algo mais autoral. Como resultado desta primeira experiência no jornalismo cultural, ganhei o direito de circular pelos escritórios da Metro Goldwin-Meyer, Fox, Condor Filmes, Paramount e outras empresas menos importantes. Beneficiado por uma cortesia permanente, que me permitia assistir a quatro ou cinco filmes por semana, me tornei amigo do gerente Zito, do Cine Lido, que tentava selecionar e me passar as melhores fotos dos filmes em cartaz. Foi ali que assisti Woodstock pelo menos três vezes em uma semana. Em resumo, sofri e suei muito em laudas e paicas, até aprender a fazer sozinho.
Foi difícil, mas consegui fazer bem feito pelo menos duas vezes neste período do DP Domingo, quando agi como um verdadeiro profissional. Na primeira oportunidade, aproveitando uma viagem para rever amigos, em fevereiro de 1970, ganhei credencial para participar de um encontro internacional da Columbia Pictures, no Rio de Janeiro. Quase me deslumbrei por estar conversando sobre amenidades com Adriana Prieto, Walter Hugo Khoury e Paulo José – no auge do sucesso como par romântico de Leila Diniz nos filmes de Domingos de Oliveira. Foi um coquetel no Country Club, em Ipanema, para mim então o centro do mundo. Em todas as fotos eu apareço com um copo de uísque na mão. Era a minha primeira incursão no chamado “show business”, um ambiente que me seria bastante familiar a partir de agora.
Na segunda façanha, agora com alguma experiência acumulada, decidi produzir aquela que seria a minha primeira grande reportagem, merecedora da primeira página do suplemento: Pequena história do cinema no Paraná, publicada em setembro de 1970. As pesquisas, que duraram semanas, iriam me apresentar a Aníbal Requião e João Batista Groff, os pioneiros. Com algum sacrifício, consegui encontrar uma foto de Requião filmando, depois de nove dias de viagem entre Curitiba e Foz, as Cataratas do Iguaçu, mais precisamente na Garganta do Diabo. De Groff, cheguei a namorar a neta, quando me aproximei da família para conhecer o trabalho do “velho”, que registrou cenas urbanas de Curitiba e (também) de Foz do Iguaçu. Havia um enorme baú num canto da casa com centenas de fotos antigas, onde achei o retrato da primeira Miss Curitiba, posando no atelier de uma conhecida pintora da época, ambas cercadas de natureza morta por todos os lados. Encontrei também fotos com fachadas de cinemas cariocas, da Cinelândia, anunciando o filme Pátria Redimida, que Groff realizou em 1930.
Minha reportagem abordava ainda os trabalhos dos novos ou semi-novos, como Dico Kremer e Sylvio Back, versados em Super 8 e 16 mm, as bitolas da época.
Continua no próximo folhetim.

