Graças ao céu temos Rafael

Rogério Distéfano

As finanças públicas devem ser como a economia doméstica: a dona de casa não gasta mais do que tem disponível em dinheiro. Cito de memória, mas o sentido é esse mesmo. O autor é conhecido: António de Oliveira Salazar, primeiro-ministro de Portugal. Ele começou como ministro das Finanças em 1932, escolhido pelos militares após o golpe de 1926. Foi primeiro-ministro de 1932 até sua morte, em 1970 – ou melhor, até 1968, quando sofreu derrame cerebral incapacitante. Mesmo assim, o regime não o afastou formalmente do cargo. A função passa a ser exercida por Marcelo Caetano; faziam-se mesmo reuniões fictícias do gabinete para manter Salazar na ilusão do poder.

Salazar manteve Portugal sem déficit – ou défice, como se diz em lusitano – por mais de quarenta anos. Sem déficit e sem liberdade, a ditadura só acabou em 1975, lá e nos Algarves. Por que Salazar. Culpa de Gustavo Fruet, ex-prefeito de Curitiba, e de ‘nossa’ Eleonora, sua irmã e secretária das Finanças. Porque Gustavo Fruet – e nossa Eleonora, por extensão – deixaram as finanças da cidade na pindaíba, com déficit. Eleonora é economista como Salazar, mas não deve ser dona de casa, daquelas que guardam o dinheiro escondido no açucareiro. Agora isso acabou, foi-se o prefeito e a irmã gastona. Temos uma dona de casa cuidando das finanças.

Rafael Greca, o prefeito que derrotou e sucedeu Gustavo Fruet, entrou na prefeitura como Donald Trump na Casa Branca: quer mudar tudo desde o primeiro dia. Os dois são que nem Luís XIV, o rei da França que dizia que depois dele podia vir o dilúvio. Rafael e Trump são Luís XIV pelo avesso: antes deles foi o dilúvio e eles nos levarão ao Monte Ararat. Gustavo Fruet e ‘nossa’ Eleonora deixaram dívida de R$ 1.2 bi aos contribuintes de Curitiba. Sacanagem. Greca não terá dinheiro para o mar de leite e mel que prometeu na campanha. Isso não se faz, Gustavo. Você podia ter ponhado um recado na porta. Ainda bem que habemus Rafael.

Bem à sua moda, Greca acusou a trolha de Gustavo Fruet, que vai travar sua administração. Não tem com que se preocupar. Ali ao lado, lado de lá do Centro Cívico, está o Deus do dilúvio de Gustavo Fruet. Esse Deus terá agora que encher a arca e as burras de Rafael Greca. Bem aventurados os que economizam, como Greca e o ditador Salazar. Greca deixará os cofres da prefeitura abarrotados para o prefeito que o suceder. Exatamente como o outro Rafael Greca, quando deixou a prefeitura em outro mandato. Nessas horas me bate essa dor, esse arrependimento, uma verdadeira angina cívica por não ter – nunca, para nada – votado em Rafael Greca.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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