O STF entra no modo Clarence Thomas, o ministro da Corte Suprema dos EUA, que deu liminar a favor de aliados de Donald Trump quando sua mulher trabalhava como lobista deles. E que por anos recebeu presentes, hospedagem de férias, viagens no jatinho particular do amigo milionário com processos no tribunal a quem, entre outras situações de discutível transparência e idoneidade, vendeu casa de sua propriedade (sem outras ofertas e sem estar no mercado). A Corte Suprema não tem sistema de correição, no pressuposto de que, sendo o tribunal mais alto da nação, não pode ser submetido ao controle de suas ações – nem por impeachment do Congresso. Daí Thomas sempre recusar, com o silêncio obsequioso e cúmplice, dos colegas, a dar-se por impedido de julgar casos em que é visível o interesse profissional na causa. O STF envereda por esse rumo, com a sobranceria dos que se pretendem acima de qualquer suspeita.
Como o ministro Dias Toffoli, que acaba de dar liminar a caso milionário patrocinado pelo escritório de sua mulher, advogada do beneficiário. Os ministros da Corte Suprema e do nosso Supremo não são iguais às demais autoridades. Os ministros do STF não querem ser iguais por que se pretendem muito mais iguais; sem qualquer parâmetro de comparação instituem-se acima de qualquer suspeita, mínima que seja. Quem evita ser igual, acaba sendo desigual, no sentido pernicioso da desigualdade, o maior dos pecados republicanos. É isso, os ministros do STF e da Corte Suprema são iguais entre si e mais iguais, ou desiguais em relação ao resto do mundo – povo e poder constituído. A ação de Toffoli, oficializada no STF, que deu presunção de legitimidade à atuação de parentes de ministros na Corte, lembra os papas medievais, infalíveis e com decisões inquestionáveis porque levavam o atributo de dogmas e artigos de fé. Os juízes supremos repetem os infalíveis papas de antanho.
Sobre Solda
Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido
não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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