Micuins

Quem nunca se coçou depois de rolar sem camisa na grama que se retire do assunto.

Antes de virar Micuim jornal digital, o micuim, animal pastoral, infernizou costas, espáduas, costelas, paletas, braços, pernas.

O micuim, que não é carrapato mas adora pele e couro, é marca de infância: pode até arder ao se relembrar folguedos, traquinagens, peladas em gramados baldios.

As mordidas ardidas do micuim, a pele avermelhada, a coceira aflitiva, breves passagens na derme infantil e juvenil. Daí em diante começam outras coceiras – no espírito, no cérebro, entre as pernas.

E chega-se à vida adulta com o hobby micuiniano: procurar sarna pra se coçar. Sem essa busca incessante talvez nem houvesse aventureiros, exploradores, cientistas, ativistas, jornalistas, humoristas.

Nem haveria a vara curta pra cutucar onças e os bichos nocivos da fauna política. Ir atrás da sarna pra se divertir aí já é derivação: ansiar pelo alívio após o prazer das provocações. Incomodar pra depois rir.

Com ou sem pandemia, com ou sem idiotas no poder, com ou sem novos jornais de humor, é dever não parar de rir.

Deve-se sorrir porque o sorriso é a única cauda que temos.

Deve-se dar risada para não ser solene. Dá uma trabalheira danada engomar atitudes ou fazer vinco no entusiasmo.

Deve-se gargalhar porque não existe eco melhor no vale de lágrimas.

Deve-se achar graça a qualquer preço, sobretudo porque a carestia impede que a graça vá de orelha a orelha.

Deve-se rir sem motivo porque nada é tão motivacional.

Deve-se aproveitar tudo que restou de engraçado neste mundo, ou até do outro.

Deve-se rir de si mesmo, para evitar sair do sério.

Deve-se soltar gaitadas pelo simples fato que é mais fácil que tocar sanfonas e acordeões.

Deve-se estocar risos para os tempos de piadas magras.

Deve-se buscar o risível por que de outra forma ele passa pela gente sem nos reconhecer.

Deve-se rir antes de dormir para acordar, quem sabe, com vestígios dele na cara.

Deve-se rir porque as desgraças vêm e vão, vêm em vão, vêm nos vãos, vêm nos vaus, vêm em vans. Elas vêm nos ver, e um dia ficam.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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